Matrimônio: desafio e festa

João Pereira Coutinho, em sua coluna de hoje na Folha, escreve mais um texto ao seu estilo: cheia de ironias e polêmicas. No fim, conclui que os divórcios deveriam ser mais celebrados que os casamentos, e que a noiva deveria quebrar à marteladas a aliança e até a cabeça do marido. Brincadeiras à parte, a reflexão do autor português me trouxe um questionamento sério: realmente, os noivos entram demasiadamente extasiados na celebração. E nisso aí pode conter muito de auto-engano, mesmo. Tudo bem que o amor a dois é muito bonito, e que eles estão realizando um grande sonho de suas vidas. Mas se os pombinhos estivessem por fazer uma verdadeira avaliação dos desafios da vida conjugal – o que deveria ocorrer – poderiam entrar mais compenetrados e sóbrios naquele que é o juramento mais importante de suas vidas. Segue o texto.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Chora, coração


No dia do casamento, o sentimento aconselhável é o temor. Os noivos devem entrar temerosos na igreja


SOU UM romântico, eu sei. Mas gostei de assistir ao casamento real de Albert 2º de Mônaco com Charlene Wittstock. E não apenas por razões freudianas, embora seja difícil desmentir o óbvio: se a princesa Charlene não é a cara chapada de Grace Kelly, o meu reino já não é deste mundo.
Gostei de ver a cerimônia porque desde o século 18 que uma família real não proporcionava semelhante espetáculo: um dos esponsais, neste caso a noiva, chorando copiosamente do princípio ao fim. E não era de felicidade. Era mais medo. Ou choque. Ou talvez horror profundo.
É a atitude correta, e George 4º era um especialista na matéria. Reza a lenda que, em 1795, arranjaram uma noiva ao então príncipe de Gales e futuro rei da Inglaterra. Seu pai, o demente George 3º, já não suportava os hábitos dissolutos do filho na companhia dos seus camaradas de armas.
Dito e feito: a senhora, Carolina de Brunswick, era prima do príncipe e foi importada da Alemanha. Em termos de beleza, estaria entre o Shrek e o Corcunda de Notre-Dame.
Mas o fato exótico que sempre cativou os historiadores era o seu gosto insaciável por cebolas cruas, um hábito adquirido no ducado germânico que nunca a abandonou.
Ela foi à Inglaterra. No primeiro encontro, o príncipe desmaiou ao vê-la e teve de ser reanimado com doses cavalares de brandy.
Sem sucesso. O pobre George lá teve que subir ao altar com o ogro e seus soluços de infelicidade interromperam várias vezes a cerimônia.
Fizeram-se poemas a respeito; algumas peças satíricas também; e a história do rei chorão correu a Europa letrada, que sentenciou com gravidade: um casamento banhado em lágrimas estava condenado ao fracasso, ou à tragédia.
Não esteve. George 4º deixou como descendente uma única filha, Charlotte, fruto de uma única noite, e, depois da missão cumprida, o jovial George regressou tranquilamente à sua vida habitual. Longe de Carolina. Longe das cebolas.
Há quem lamente a sorte de George 4º. Mas existe algo de simbólico e universal nela: para que sorrir no dia do casamento quando o futuro é incerto e a conjugalidade monogâmica não é para toda gente?
No dia do casamento, o sentimento aconselhável é outro: temor. Os noivos devem entrar temerosos na igreja ou no registro civil. Devem trocar os seus votos de fidelidade com voz trêmula e algum ceticismo à mistura. Devem recusar as alianças e optar sensatamente por apólices de seguro.
E os convidados devem abster-se de jogar pétalas ou grãos de arroz. A atitude correta é rezar em conjunto um pai-nosso e uma ave-maria no momento em que o casal parte, enfim, para uma vida a dois.
Tal não significa que as relações humanas não mereçam festa pública. Merecem. Mas é mais sensato celebrar quando há certezas definitivas. Quando há, por exemplo, um divórcio definitivo.
Como explicar que todo o dinheiro e toda a energia sejam investidos em festas de casamento quando seria mais avisado festejar o momento glorioso em que duas almas decidem pôr um fim aos seus tormentos?
Hoje, os divórcios são burocráticos, anônimos, envergonhados. Injustamente. E por isso não admira que, na semana em que a mídia voou a Mônaco para cobrir um casamento, quase ninguém tenha prestado atenção à belíssima história de Tomoharu e Miki, no Japão.
Eis os fatos, relatados pela melhor imprensa: a 11 de março, o Japão foi devastado por um terremoto letal. E foi a partir desse dia que Tomoharu e Miki começaram a pensar na vida que tinham. Ou, melhor dizendo, na vida que não tinham. Nada como um desastre cósmico para repensar prioridades.
Convidaram a família. E os amigos. Reuniram-se em um restaurante de luxo. Assinaram os papéis do divórcio. E, com um martelo na mão, partiram o anel às marretadas, perante os aplausos dos presentes.
Bebo a eles. E bebo à princesa de Mônaco. Hoje, é tempo de chorar, sobretudo quando o priápico Albert continua a contribuir clandestinamente para o aumento da diminuta população de Mônaco.
Mas chegará o dia em que, de martelo na mão, Charlene poderá quebrar os sagrados laços do matrimônio e, quem sabe, a cabeça do seu esposo. Os sorrisos devem ser guardados para a hora certa.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0507201114.htm

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