O “Bem”, o “Bom”, ou o “Bem-bom”?

Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação de acordo com o projeto de Deus. – Rm 8,28

A frase de São Paulo de Tarso acima certamente é uma das que abriu possibilidade para alguns cristãos criarem a Teologia da Predestinação, cujo mentor principal foi João Calvino e foi levada adiante pela igreja calvinista, hoje Presbiteriana. Mas será mesmo que São Paulo está querendo dizer que aquele que foi “chamado”, que foi “escolhido” para a salvação – em detrimento dos que não foram – possui benefícios infinitos, sendo que tudo acaba contribuindo para seu bem, enquanto o resto vive na miséria, cuja situação não pode ser revertida já que ele foi colocado neste grupo “desde sempre”, como diz o próprio apóstolo em outra situação? É claro que este viés frágil não possui muito respaldo, bastando olhar para a própria vida do autor, que acabou passando por “muitas e boas” no decorrer de sua vida.

Em sua linguagem, bela e característica, São Paulo passa mais informações e nos revela mais coisas que a Ele foi revelada do que podemos imaginar. Todos (sublinhem esta palavra) foram “chamados para a salvação de acordo com o projeto de Deus”, e um dos mais ávidos partidários desta ideia é o próprio Paulo, que lutou para que não houvesse a necessidade dos cristãos serem circuncidados, exatamente para abrir o círculo da Igreja até “os confins do universo”, como disse o próprio Jesus Cristo. Mestre cujas ordens São Paulo guardava com zelo extremo, respeitando todas elas – também ao contrário do que muitos dizem por aí. E, sim, tudo (outra palavra em destaque) “contribui para o bem daqueles que amam a Deus”.

Peraí: da primeira parte comentada – a segunda da frase – até deu pra entender, mas e essa daí? Que explicação há? Se “tudo” contribui, ou o apóstolo era um lunático (garanto que muitos escolham esta hipótese) ou o “bem” do qual ele falava era diferente do que nós defendamos por aí. Não é, sem dúvida, aquele que geralmente se deseja a alguém que faz aniversário, dizendo “tudo de bom”; no meu último, alguns amigos especificaram esse “bom”, dizendo “muita alegria, festa, cachaça, mulherada…” Opa! Certamente não estamos falando da mesma coisa e esse “bem-bom” aí não me parece muito cristão.

Leio este “tudo contribui para o bem” à luz de uma das mais belas palavras do Senhor: “Vinde a mim vós, que estais cansados e fatigados… pois meu jugo é suave e meu fardo é leve”. Que tem muita gente cansada por aí, isso é verdade, e eu me incluo. Mas da onde Jesus está vendo leveza no fardo dEle? Seu fardo é a cruz. Pesado, não? Nos deparamos com a mesma “loucura” que São Paulo imitaria depois. E há muita beleza nela: o homem persegue o que acha “bom”, e acaba sempre perdendo o rumo, já que o que busca é fugaz ou não existe; já o “bem” de Jesus e Paulo é exigente, mas é completo e supera toda dor e angústia, mesmo que seja a cruz: é o Amor.

O fardo do que parece “bom” é pesadíssimo, muitos passam a vida e não o encontram; o jugo do “bem” existe, mas acaba sendo leve, pois é capaz de transformar todas as coisas, fazendo com que os desafios mais cabulosos permaneçam doloridos, mas se transformem em oportunidades de amadurecimento e prática de misericórdia e perseverança. É óbvio que tudo isto não é fácil e não vem de graça. Mas a boa notícia é que todos (olha ela aí) são chamados e convidados para aderir. Certamente, se utilizássemos a energia que gastamos atrás do que é “bom” para o que é “bem”, estariamos muito mais próximos de compreender todo este mistério.

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