“Ó céus, ó vida…”

Resmungar, murmurar, praguejar: existe ato mais inútil e desprezível no nosso cotidiano? Penso em como estamos propensos a achar defeitos nas coisas, pessoas e situações que dispomos no dia-a-dia. Talvez seja a boa e velha ganância capitalista, que nos impulsiona sempre a querer mais e melhor; ou talvez seja a influência do etéreo pensamento dialético comunista que crê  que devemos estar sempre de orelha em pé e dedo em riste para perceber as coisas erradas que estão por aí, e sermos críticos. Vá lá: não é necessário deixar de querer coisas boas ou de ser crítico da situação para parar de reclamar da vida; na verdade, o ato de murmurar contra o mundo que conspira contra si é muito mais um ato de individualismo e egoísmo puro do que uma ideologia propriamente dita. Antes de explicar melhor isto, gostaria de dizer que existem dois tipos de resmungador.

O primeiro tipo é o que reclama para se fazer de vítima. O “pobrezinho”, “coitadinho”, “ovelha negra do universo”, “perseguido” e etc. Este tipo de pessoa (ou este tipo de situação, já que acredito que todo mundo já passou por isto pelo menos na última semana) acredita ser uma desafortunada  e que passa por situações horríveis a todo momento. É o trabalho que é muito pesado, os estudos que são enfadonhos, a família que não ajuda, os amigos que não dão confiança, e por aí vai. Pior: nessas situações corre-se o risco de ser reclamão simplesmente por hábito; vide o clima: quantas vezes reclamamos do tempo que está fazendo, algo que – realmente – não tem função nenhuma. Dizer “que frio!”, ou “que calor!”, ou ainda “chuva chata!” não vai fazer com que o céu mude e nem com que as pessoas sintam pena de você e te deem um dinheirinho pro cobertor, ventilador ou sei lá o quê.

O segundo é ainda mais interessante: reclamar para se fazer de heroi, de mártir. A essência é a mesma: a pessoa vive num vale de lágrimas infinito que, quando se pensa que está melhor, só faz piorar. Mas ela não é um qualquer, mas aquele que vence tudo isso, com muita garra! Mas ainda assim reclama. Tal fenômeno é facilmente observado no Facebook, em mensagens como: “com gripe, mas indo pro trabalho!” ou “sábado? dia de branco, meu amigo!”. Está claramente implícito aí que a pessoa está a reclamar (como diriam os lusitanos), mas se fazendo de valente. E desse comportamento ainda há uma variante: aquele misto de inveja e soberba que faz com que o reclamão deseje isso ao outro: “sim, meu amigo, estou na pior, mas estou aguentando firme. Você ainda saberá o que é isso!” Péssimo.

Voltemos ao ponto de que isso tudo não é vício de linguagem, nem um padrão intelectual estrategicamente pensado, mas sim uma demonstração de egoísmo. E vem de nosso mundo antropocêntrico, científico e iluminado. Servidão, ignorância e sentimento são palavras esquecidas e abominadas. O homem é o centro da humanidade, e o seu desenvolvimento é o que importa. Pois que homem devemos nós nos preocupar senão com aquele que está mais próximo: nós mesmos? Então, automaticamente, fica o sentimento de que algo está errado neste antropocentrismo: nós não estamos no centro! A chuva conspira contra mim, o patrão conspira contra mim, o frio, o professor, a sujeira, a maldade, a traição, a ventania, a dúvida: elas não estão jogando do nosso lado!

Reclamar, portanto, é um ato de egoísmo; queremos simplesmente expor ao mundo o que NÓS estamos sentindo, e não para compartilhar para ajudar, mas somente para pedir ajuda ou até para atestar que nós não estamos no lugar certo: o centro do mundo. O fato é que nunca estaremos neste centro, e tudo sempre jogará contra nossa verdade. Mas ao percebermos que ao nosso lado está alguém que sofre tanto ou mais que nós e gostaria muito de uma mãozinha (pois talvez não esteja reclamando!), aí veremos que não temos motivos de criticar nossa própria existência, e poderemos viver mais tranquilos e na paz verdadeira, sabendo que somos grãos de areia girando em torno de um vórtice muito maior.

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