A vida se dá no sopro, não no furacão

Passando o terremoto, veio um fogo. Mas o Senhor não estava no fogo. E, depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta. – 1Rs 19,12-13a

Já tive a oportunidade de falar aqui outras vezes sobre o cotidiano dos universitários: após os estudos, a prioridade é a vida social, que é movimentada por reuniões com os amigos, risadas, bebidas e música alta. Não há nada de errado aí, ao menos aparentemente. Uma das melhores coisas da vida é ter amigos, poder compartilhar a vida com eles, contar histórias engraçadas, ouvir tantas outras, dar risada. A bebida por si só também não é danosa, pois o homem a utiliza a tantos milênios para aprimorar suas habilidades sociais. Da mesma forma a música, a dança, a festa: rituais de alegria e demonstração de que a vida vale a pena ser vivida, em especial com um sorriso no rosto. Se deste cenário saem tragédias e tristezas, a culpa já é do exagero da parte de alguns e da irresponsabilidade de outros.

O problema surge quando – e minha observação cotidiana atesta isto – as pessoas acabam seduzidas demais por este tipo de evento, e aquilo passa para um nível de prioridade que extrapola o próprio rito de confraternização em si: contamina o resto da vida. Tudo acaba movido pela gargalhada, bebida e barulho, e nos momentos em que estes fatores não podem estar presentes (apesar de tais pessoas os buscarem com frequência cada vez maior) tudo é tristeza, tédio e pasmaceira. É óbvio que a vida não é apenas festa e balada; digo que é muito pelo contrário: os princiapis momentos da vida são feitos na seriedade do silêncio, na profundidade do sussurro, na frutífera relação entre pessoas que se dá na fidelidade verdadeira. Até porque um ambiente extremamente agitado não é lugar para se exigir fidelidade de ninguém.

E hoje a juventude está cada vez mais contagiada pelo império dos sentidos (como se não fosse esta faixa etária naturalmente dada a isso). Acabou se tornando uma crítica natural dos especialistas o espírito hedonista dos jovens de hoje: são aqueles que buscam encher-se de experiências sensoriais para estar em paz. E a paz da festa é qual? A ressaca. Até mesmo alguns que buscam na religião a saída para suas vivências acabam caindo na mesma esfera: celebrações e cultos recheados de barulho, de música alta, de interação física tátil, show de luzes e até mesmo fragrâncias e gostos. Talvez tudo isto seja efeito de uma educação libertária dada pelos pais traumatizados por terem sido criados numa rigidez exagerada; ou ainda pelo império eletrônico e da informática que nos guia ao corporal sempre.

A questão é, como dizia, que as principais coisas acontecem no silêncio e na seriedade. As festas podem até ser o melhor da existência, mas o que te define como homem e mulher e deixa tua mensagem ao mundo é muito sério. E pobre daquele que não consegue manter-se em silêncio ou na solidão, pois é incapaz de ocupar sua mente com reflexões que seriam importantes no seu dia-a-dia; não consegue manter seu corpo em equilíbrio e domínio, sendo sempre ele a mandar mensagens de ordem (vícios); ou ainda não é capaz de olhar ao redor e encher o coração de compaixão pelos que sofrem e padecem ao seu lado. É o fundamento primordial do egoísmo. É a potencialização do que já tinha sido visto no movimento hippie: o culto do sentido em busca de um politicamente correto pouco embasado, que propõe uma paz insustentável.

Elias, o grande profeta do Antigo Testamento, está – na passagem de hoje – em maus lençóis. O povo de Israel (guiado então por um rei estranhão e perverso) deixou de lado a religião dos seus antepassados e está agora na “vibe” de Baal, um deus cujos cultos são bem mais animados e permissivos. Quando surgem aqueles moralistas querendo lembrar de uma tal Lei de Moisés, eles não querem saber: passam o fio da espada no pescoço de todos. Só Elias sobra e, ameaçado, foge para o deserto, onde se depara com o próprio Deus verdadeiro. Passam pelo profeta um furacão, um terremoto, um incêndio; Deus não estava neles. É quando surge a brisa leve e reconfortante que ele reconhece: este é o meu Deus. o Deus que permite ao homem fazer suas celebrações, mas exige que ele assuma seus compromissos na alegre seriedade e firmeza do mais íntimo do seu ser.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Lazer, Religião

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: