Vale se arriscar pelo amor?

Histórias de amor são aquelas que fazem as mulheres chorarem no cinema, as moçoilas suspirarem “debaixo da verde rama” e as meninas sonharem com o príncipe encantado que se encaminha galopante. Mas até que ponto são reais? Será mesmo que esse “amor” é realmente Amor? E se dependesse a vida do amante? É o que um casal muito jovem está sendo confrontado no Afeganistão: condenados à morte por estarem juntos; é a história contada hoje no New York Times. Os depoimentos dos meninos são meio frios e vagos; penso que talvez sejam muito mais garotos que queriam se divertir e se conhecer e sofrem agora as consequências de uma lei burra e sem sentido (e em nome de Deus!). E se fosse para morrer por um outro alguém, que não fosse pela paixão? Será que vale a pena algo assim? A vida se desenrola por este tipo de amor? Não ouso responder estas questões, tão profundos mistérios da humanidade…

 

Para jovens afegãos, o amor é um risco

Um pai prefere que a filha “desonrada” seja assassinada

Por JACK HEALY

HERAT, Afeganistão – Os dois adolescentes se conheceram na fábrica de sorvetes onde trabalhavam, trocando olhares furtivos antes da chamada até se conhecerem melhor.
Era o começo de uma história de amor afegã, que desrespeitava as tradições dos casamentos arranjados e do intenso escrutínio familiar; um romance entre dois jovens de etnias diferentes, pondo à prova a tolerância de uma aldeia em relação aos caprichos mais modernos do coração. E as consequências vieram com velocidade brutal.
Em julho, um grupo de homens avistou os dois adolescentes juntos em um carro e os atirou na rua. Cerca de 300 pessoas enfurecidas os cercaram, exigindo que fossem mortos a pedradas ou enforcados.
Quando as autoridades intervieram e resgataram o casal, a multidão explodiu, subjugando a polícia local, incendiando carros e invadindo uma delegacia que fica a 10 km do centro de Herat.
O tumulto terminou com um homem morto, uma delegacia carbonizada e os dois adolescentes, Halima Mohammedi com seu namorado Rafi Mohammed, recolhidos a um reformatório. Oficialmente, o destino deles está nas mãos do instável Judiciário local. Mas eles enfrentam julgamentos mais severos da família e da comunidade.
Um tio de Mohammedi a visitou no reformatório para dizer que ela envergonhou a família e prometeu que os parentes a matarão quando ela for solta. Seu pai, Kher Mohammed, um analfabeto que trabalha no Irã, tristemente concordou. Ele chorou durante duas visitas à prisão juvenil, sem falar quase nada para a filha. O sangue, disse ele, talvez seja a única saída. “O que pedimos é que o governo mate os dois”, afirmou.
Os adolescentes, constrangidos em falar de amor, disseram claramente que estão preparados para morrer. Mas estavam perplexos quanto às razões que podem levá-los à morte.
Mohammed, 17, disse: “Eu me sinto muito mal. Eu só rezo a Deus para que me devolva essa menina. Estou preparado para perder a minha vida. Eu só quero que ela seja libertada em segurança”.
Mohammedi, que acredita também ter 17 anos, disse: “Somos todos humanos. Deus nos criou do mesmo barro.
Por que não podemos nos casar ou nos amar?”.
O caso repercutiu em Herat, em parte por evocar um incidente ocorrido há cerca de um ano no norte do Afeganistão, onde um jovem casal que havia fugido de casa foi apedrejado até a morte por uma multidão -inclusive de familiares-, cumprindo ordens do Taleban. A lapidação, uma aplicação brutal da sharia (lei islâmica), foi registrada em vídeo e colocada na web meses depois. Diante da reação internacional, as autoridades afegãs prometeram investigar, mas ninguém foi indiciado pelo crime.
Em comparação a isso, a resposta imediata à violência em Herat foi animadora. Clérigos importantes se negaram a condenar o casal, e a polícia informou que cinco ou seis meninas fugiram da cidade com seus namorados e noivos nas semanas subsequentes ao tumulto.
A assembleia provincial decidiu que Mohammed e Mohammedi mereciam ter proteção do governo, pois não eram noivos de outras pessoas e manifestaram a intenção de se casar. “Eles não são criminosos, mesmo que tenham cometido atividades sexuais”, disse Abdul Zahir, presidente da assembleia.
Mas, até agora, isso não bastou para libertar o casal nem para lhe assegurar proteção em longo prazo. A polícia disse que entregou o caso a promotores.
Mohammed disse que não imaginou a ira que despertaria o fato de um jovem tadjique ficar com uma menina hazara num bairro dominado por conservadores hazaras, membros de uma das muitas minorias étnicas afegãs. “É o coração”, disse Mohammed. “Quando você ama alguém, não pergunta quem ou o que ela é. Você vai atrás.”
Mohammed passou um mês roubando “ois” na fábrica onde os dois trabalhavam até que Mohammedi jogasse seu número de telefone aos pés dele.
Após um ano, eles decidiram que estavam fartos de esconder o namoro. Queriam se encontrar, ir ao tribunal e se casar. Mohammed convenceu um primo mais velho a levá-lo até a aldeia de Jabrail, onde ela o esperava na praça. Não haviam percorrido nem dez metros de carro quando um veículo bloqueou a passagem. Homens enfurecidos saltaram dele. A multidão agrediu o primo e surrou Mohammed até que ele desmaiasse.
O casal diz que pretende ficar junto, mas há complicações. Parentes do homem morto nos distúrbios mandaram avisar Mohammedi que a culpa é dela. Mas lhe ofereceram uma saída: caso ela se case com um dos filhos dessa família, sua dívida será perdoada.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny0808201107.htm

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