Deus, o Vingador?

Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. – Eclo 28,1

 

A vingança de Deus: eis um bom assunto para se falar neste domingo, cujo discussão nas celebrações é o perdão. Não são poucas as vezes no Antigo Testamento que o escritor sagrado se refere à vingança e vendeta de Deus; um dos salmos mais importantes diz que a vingança deve partir da parte dEle, e não da nossa. Certamente que esta característica aparentemente tão humana e peculiar é um dos grandes motivos de crítica e mal-entendidos da parte de crentes e não-crentes. Se Deus é capaz de vingar-se, então Ele não é pura e simplesmente Amor; Ele possui sentimentos de homem, temperamento como o dos homens, desejos como os nossos.

É claro que não é bem assim; religião como esta (de deuses antropomórficos) só mesmo os gregos antigos para acreditar, e de uma maneira bem conveniente. O relacionamento da Grécia Antiga com seus superiores que habitavam no Olimpo não deixa de ser engraçado. Um ótimo ponto de referência para tal crença é assistir ao filme “Percy Jackson e o Ladrão de Raios”. Ou seja: ótimo para Hollywood, péssimo para ser levado a sério. Mas se nosso Deus judaico-cristão não possui tais comportamentos (como Zeus que descia à terra para umas “festinhas”), onde podemos colocar a tal vingança da parte do Senhor? Seria ela irreal, uma mentira de alguns livros da Bíblia?

Mais uma vez nos deparamos com uma pergunta impossível de ser respondida afirmativamente sem jogar no lixo milhares de anos de fé. Mas, já que propus o tema, me arrisco a dar uma resposta. Penso que a vingança divina é uma das coisas mais importantes para se entender em matéria de cristianismo, já que ela mostra o peso e o valor do livre-arbítrio; este que é um dos mais importantes pontos da fé, necessário para se compreender toda sua estrutura e teologia. É a liberdade dada a nós por Deus que proporciona as duas consequências: o Amor infinito e incondicional (e junto dele a Salvação) e a vingança e cobrança dos pecados (e a danação eterna).

Trocando em miúdos: ao deixar aberta a porta da liberdade, Deus dá a oportunidade de que entremos e gozemos de sua Glória em Seu Santuário; e pelo mesmo Dom precioso Ele proporciona que todas as nossas escolhas erradas caiam sobre nossas costas, fazendo-se a Justiça. A vingança de Deus é a justiça pelo pecado dos homens, pelo seu desamor, ódio e guerra. A boa notícia: Deus, o Clemente e o Bom, prefere a Misericórdia à Justiça. E aí que este ponto se encaixa na liturgia de hoje. Somente pela Misericórdia é possível quebrar o ciclo do mal; mais do que aproveitar dela, devemos utilizarmos dela no dia-a-dia. Mas a porta do livre-arbítrio, esta não pode ser fechada: o grande presente de Deus que nos traz o Bem, mas que também nos permite o mal, nesta dinâmica belíssima e perfeita da vida humana.

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