As cinzas do WTC ainda estão por aí

Ontem fizeram dez anos dos ataques de 11/9/01. Eu tinha onze anos na época, viajava pra apresentar uma peça de teatro na cidade de Andirá. Paramos para ver as cenas na TV. Simplesmente surreal. E até hoje parece-me que ninguém consegue conceber muito o que aconteceu naquele lugar, a não ser quem esteve lá muito perto ou perdeu alguém muito próximo. Relatos dizem que nem os americanos estão muito empolgados com este aniversário dos ataques. Acho que a questão é tão complexa que não há análise para se fazer. Se os loucos comemoram, os sensatos fazem silêncio. Fale quem tem permissão pra falar: a literatura, como esse belo ensaio do NYT de hoje que posto abaixo.

Dez anos depois

Ajustando-se ao novo mundo
pós-11 de Setembro


N.R. KLEINFIELD
ENSAIO

Naquele dia -o 11 de Setembro que não precisa que seja dito de que ano-, o sol se pôs sobre edifícios esmagados, em um mundo reimaginado. Se pôs sobre um horizonte cujos contornos tinham mudado, sobre uma cidade assombrada.
As equações da vida tinham deixado de funcionar. Era assim que parecia.
Hoje, uma década depois daquele dia em que as torres gêmeas desabaram em Nova York, o Pentágono foi invadido e um avião desviado de sua rota caiu em um campo nas proximidades de Shanksville, Pensilvânia, as pessoas sabem onde estavam quando ouviram o inusitado.
As recordações permanecem frescas e contundentes. O chão tremendo, a muralha de fumaça que escondeu o sol, a poeira sufocante, as pessoas que pulavam do alto do edifício -as dolorosas perdas de vidas, os atos de heroísmo épico. As linhas telefônicas congestionadas que não permitiram as conexões com quem talvez pudesse ter respostas.
As pessoas ouvindo os rádios de seus carros, os relatos de mais aviões no céu, o medo de mais assassinos ainda por vir.
E os dias, semanas e meses de dor, mais tarde.
As pessoas comprando paraquedas para ter como fugir da próxima vez. A longa e arrastada busca pelos restos mortais. Os enterros.
Os ataques colocaram de ponta-cabeça as vidas de famílias -os pais, as mães, os maridos, as mulheres, os filhos das quase 3.000 pessoas que não voltaram para casa.
Paul Simon disse que não sabia se algum dia poderia ser capaz de concluir outro álbum. Em um site de recordações do dia, uma mulher escreveu que lamentava ter tido filhos, lamentava ter levado a inocência deles a um mundo que deixara de ser compreensível.
Mas houve um abismo entre as expectativas e a realidade. A profecia de mais ataques contra os EUA não se concretizou, pelo menos não por enquanto. Muitas coisas que se previu que mudassem não mudaram. Nova York, que por sua própria natureza é capaz de adaptar-se a tantas coisas, dispôs-se a absorver o 11 de Setembro e seguir em frente.
As pessoas conhecidas como “Wall Street”, celebradas como mártires e heróis nos dias seguintes aos ataques, foram vilipendiadas por sua cobiça sem fim. A América voltou a ser um país de divisões ideológicas e de intransigência política incivilizada. O que se manteve? Tirar os sapatos e ser revistado nos aeroportos.

Todas as informações que passaram a ser colhidas sobre quem somos e o que fazemos -uma espionagem que é mais aceita do que é objeto de reclamações. Uma leve e persistente desconfiança em relação a muçulmanos. Um par de guerras distantes que se negam a terminar facilmente, com conta que já chega a US$1,3 trilhão e está aumentando.
A certeza de que qualquer prestação de contas completa terá que incluir o custo da defraudação do futuro da América.
Para a maioria dos americanos, a influência do 11 de Setembro sobre a vida cotidiana é sentida muito menos intensamente que a chegada do Facebook e do Twitter. Ou que a erupção de vozes irritantes que fazem discursos entediantes na TV a cabo. Ou que a recessão sufocante.
Em última análise, cada pessoa confere um significado pessoal ao 11 de Setembro, se possível. Tirando as famílias das vítimas, a vida da maioria das pessoas pode não ser muito diferente. Mas sobrou um resíduo, alguma coisa do 11 de Setembro que não se dissipou por completo.

(…)

A premonição de uma criança
Sasha Vaccaro terminou a aula de culinária -hoje foi espetos de carne, superdivertidos- e tinha o resto da tarde livre. Ele se sentou num Starbucks do outro lado da rua em relação a sua casa no Upper East Side de Manhattan e tomou uma limonada Passion Tea. Ele tem 15 anos.
Sasha tem uma vida complicada. Ele sofre de depressão que pode ser incapacitante. Já foi diagnosticado com aspectos da síndrome de Asperger, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e transtorno obsessivo-compulsivo. Seu irmão menor é autista. Seus pais são divorciados.
Seu 11 de Setembro foi assim: ele estava no jardim de infância, a quatro quarteirões do World Trade Center, tocando pandeiro na aula de música.
Seu pai o pegou nos braços e o levou embora no momento em que o segundo avião abriu um rombo na lateral da torre. Ele viu os dois edifícios em chamas. Seu pai chorou, e ele também.
“Antes disso, eu achava que o mundo era perfeito e todo o mundo era bonzinho”, contou Sasha. “Depois daquele dia eu deixei de acreditar em Deus.”
As torres do World Trade Center tinham grande importância para sua família. Eles costumavam ir para lá e se deitar no chão, com os pés tocando a base de uma das torres, e olhar para a presença majestosa ao alto.
Ano após ano, Sasha não falou nada sobre o 11 de setembro. Então, em março deste ano, ele escreveu um “graphic novel” -foi um trabalho da escola, para o qual tinha que relatar um momento crucial em sua vida. Foi a história de seu 11 de setembro, desde as panquecas pela manhã e a aula de música até a calamidade e as lágrimas. E também seu momento de sexto sentido: na escola, ele teve a premonição de que algo terrível era iminente, envolvendo as torres. Olhou para elas e disse a seu pai: “Papai, alerta torres gêmeas! Alerta torres gêmeas!”.
Ele achou que, quando desabafou suas recordações, estava finalmente enfrentando algo que criança nenhuma deveria ter sido obrigada a ver. O graphic novel lhe valeu uma nota alta. A classe ficou fascinada.
Sasha vem se saindo melhor em todas as frentes, ultimamente. A terapia o vem ajudando com seus muitos problemas. Seus remédios estão sendo reduzidos. O último ano escolar foi o melhor de sua vida. Ele quer ser neurocirurgião ou veterinário quando crescer. Ele nunca voltou ao Ponto Zero. Diz que talvez, quando a obra ficar pronta, ele vá até lá para ver como ficou.
No Marco Zero, muitas coisas estão acontecendo. Três mil operários por dia -o mesmo número que os mortos daquele dia- estão erguendo o que vai substituir os edifícios que desapareceram.
Turistas passavam ao lado, olhando pela cerca e vendo o aço brotar do meio da terra dos fantasmas.
Aquele dia foi dez anos atrás. Algum dia, será 20 anos atrás, 50 anos e cem anos atrás, mergulhando cada vez mais e mais longe na história.
O que significa o 11 de Setembro?
Sasha pediu para pensar um pouco antes de responder. Seu rosto ficou sério enquanto refletia profundamente. “Honestamente, não sei”, disse. “Não consigo entender por que pessoas fizeram algo assim. Não sei o que dizer. É apenas tristeza. Nunca será mais que isso. Muita tristeza, muita, muita.”

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny1209201101.htm

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