O Papel do Humor e da Ironia

As homenagens e reflexões acerca do 11/9 continuam. Todos querem dar sua contribuição à situação, que como o autor do texto de ontem deixa claro, é extremamente pessoal. João Pereira Coutinho deixa sua homenagem na sua coluna de hoje, do jeito que só ele sabe fazer. Faz-nos pensar um pouco acerca da seriedade da vida, da leveza da existência, do peso que as coisas querem impor a nós e que somente nós podemos escolher pegar ou não. Sempre penso qual a semelhança (se é que existe) entre a “Graça” dos Céus e a “graça” das piadas. Não acho que a salvação venha do humor, mas vejo a cada dia que ele é importante (senão fundamental) para manter o foco na vida. Rir da desgraça é loucura; rir de qualquer coisa é desespero; rir da própria fraqueza é sensatez.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Um nome entre milhares


David Angell mostrou o que somos em “Frasier”. E que a nossa salvação não está no martírio; está na ironia


Gostava de ser David Angell, dizia eu, anos atrás, quando assistia a “Frasier” na televisão. Admito que, para espíritos mais sofisticados, os ídolos sejam outros. Kafka. Borges. Talvez Saramago, o parente pobre dos dois.
Sou um rapaz modesto. David Angell chegava e sobrava.
Quem é Angell? Digamos apenas isto: encarnação moderna de Noel Coward na capacidade narcótica de escrever diálogos como Cole Porter escrevia canções. Não existe nada de cerebral na obra de Angell -por exemplo, um homem que acorda inseto e, sei lá, revela ao leitor a grotesca inadaptação do homem contemporâneo.
David Angell não é bicho de profundezas; é bicho de sutilezas. E as frases dele eram cinzeladas de tal forma que se diluíam no ar depois de escutadas. Puro prazer efêmero.
Basta assistir ao trabalho de Angell para televisão. Alguns especialistas citam “Archie Bunker’s Place” e “Cheers” como exemplos maiores de uma pena maior.
Não nego. Quem não ri com as colocações do reacionário Archie Bunker deve analisar rapidamente o seu estado neurológico. O mesmo em relação a “Cheers”, essa série de camaradagem etílica que quase fez de mim um alcoólatra feliz.
Mas a Capela Sistina é mesmo “Frasier” e sempre que posso volto a ela. Como voltei agora, nos dez anos dos atentados de 11 de Setembro. Coisa bizarra: o mundo repete o mesmo circo midiático sobre o horror -fotos, documentários, declarações, alguns delírios- e eu, deitado no sofá, com um sorriso de orelha a orelha, acompanhando as aventuras e desventuras do dr. Frasier Crane em Seattle. Terei desculpa?
Talvez tenha. Parafraseando a velha sabedoria judaica, se é verdade que salvar uma vida significa salvar a humanidade inteira, não deixa de ser igualmente verdade que relembrar uma vida é relembrar todas as outras.
Os fatos: se o avião da American Airlines onde David Angell viajava naquela manhã de setembro não tivesse batido contra a torre norte do World Trade Center, talvez não estivesse aqui assistindo a “Frasier”.
Mas estou. Na contabilidade macabra do 11 de Setembro, temos números que nada dizem de essencial. O que são 3.000 vítimas quando nada sabemos de cada uma delas? A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística, dizia o camarada Stálin, que nesse particular sempre preferiu contribuir para as estatísticas.
Eu prefiro dar a minha contribuição para as tragédias. Como a morte de David Angell. Como a morte de cada vida inocente naquela manhã infame -vidas que David Angell retratou de forma magistral no seu trabalho.
Por isso “Frasier” merece ser visto e revisto. Não apenas para saborearmos -“saborear” é o verbo- o humor, a criatividade verbal, o espantoso ritmo de tramas e diálogos que a televisão americana nunca mais voltou a exibir.
Mas também porque acompanhar a vida de Frasier, psiquiatra e estrela radiofônica; as suas tempestuosas relações com o pai aposentado (e colega de casa); as suas competições profissionais e emocionais com o irmão Niles; as suas homéricas ilusões e desilusões amorosas -tudo isso é uma celebração gentil, urbana, por vezes absurda e absurdamente cômica, que sempre foi anátema para a mentalidade dos fanáticos.
O Ocidente é “Frasier”: essa cultura de “perdão” e “ironia”, como explicava o filósofo Roger Scruton tempos atrás. Uma cultura onde recusamos a literariedade do fundamentalismo para acomodarmos a imperfeição de que somos feitos. Para nos rirmos dela. E, pelo riso, para perdoarmos e nos perdoarmos a nós.
Sem “perdão” e “ironia”, explicava Scruton, as liberdades da civilização ocidental teriam sido inalcançáveis. Como são inalcançáveis em culturas dominadas pela violência e pela intransigência de quem aplica comandos sagrados aos outros.
David Angell mostrou o que somos em cada episódio de “Frasier”. E mostrou que a nossa salvação não está no martírio; está na ironia.
Lembrá-lo, nos dez anos do 11 de Setembro, não é apenas evocar uma das vítimas mais famosas daquela manhã.
É retirá-lo daquele avião funesto e permitir-lhe uma última gargalhada sobre o ódio e a escuridão.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1309201115.htm

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