A autocrítica é possível?

Quantas vezes não nos deparamos por aí com determinados comportamentos de pessoas, que só nos resta refletir: “como fulano não percebe que está fazendo algo de tão errado com a própria vida? Como ele não tem noção do que faz?” É certo que a autocritíca é uma das coisas mais complicadas na vida das pessoas, mas certamente uma das mais importantes. Tantos estão por aí destruindo-se física, mental e espiritualmente por atos danosos que não são vistos como tais. Tenho o costume de dizer “ninguém muda porque uma outra pessoa lhe disse que deve mudar”. Certamente isso se dá por dois motivos: o primeiro, ninguém gosta de dar ouvidos às outras pessoas; o segundo, que ninguém acha que está errado.

Vou começar a falar do segundo ponto. É importantíssimo sabermos disso: quando olhamos o comportamento de uma outra pessoa que não nos agrada, e achamos que ela deveria – para seu bem – agir como nós, estamos esquecendo que ninguém faz nada em sua vida (a não ser que esteja sendo obrigado) que ache que esteja errado. Todos nós nos acreditamos certos, e temos argumentos para tal postura. Afinal, somos seres humanos e a racionalidade é nosso forte; mesmo meio capenga, ela está ali presente para justificar atos, mesmo que seja na teoria do “menor dano” ou “menor esforço”. É o que se dá nas discussões de política, futebol e religião: eu me sinto correto, tenho meus argumentos para tal e os outros deveriam ser como eu.

Mas mais grave que isso é o primeiro problema: a surdez diante das pessoas e dos fatos. Não gostamos – nem conseguimos – ouvir as pessoas ao nosso redor de maneira verdadeira. Gostamos de falar: quantas vezes não ouvimos “vou jogar na cara daquela pessoa algumas verdades”. Mas ouvir verdades nunca é bacana. Isto não é um defeito físico no aparelho auditivo, nem muito menos um vício isolado. É uma manifestação característica e poderosa de nosso egoísmo. Vivemos achando que somos autosuficientes, que bastamos a nós mesmos. Precisamos dos outros numa relação extremamente funcionalista, afinal, o homem não tem condições físicas para sobreviver sozinho na natureza; não tivesse se reunido em grupos, teria sido devorado pelas feras rapidamente.

Então pensamos que o outro é simplesmente aquele que complementa a sociedade que gera os produtos necessários para minha sobrevivência. Existem por aí muitas famílias baseadas em casamentos que são “de conveniência”: o marido e a mulher veem um ao outro como “parceiros”, “sócios”, onde se ajudam mutuamente nas dificuldades financeiras e na criação dos filhos. Até nos outros relacionamentos amorosos esta situação é vista claramente: a exaltação do ato sexual como centro e vértice dos relacionamentos mostram como o outro é um objeto, presente na minha vida para me dar prazer em determinado momento, e que, ao não funcionar mais para tal ato, deve ser descartado, reciclado ou aposentado.

Portanto, é sim possível levarmos uma vida com uma autocrítica afinada que nos ajude a melhorar sempre. E isso passa muito mais pelo saber ouvir do que pela capacidade de refletir e escrever textos filosóficos. E, ao final das contas, estamos falando de uma só questão, um só sujeito: a humildade. Só a humildade é capaz de combater esse sentimento de autosuficiência que toma conta de nós. Somente percebendo que sou tão falho quanto os outros – e que erro tanto quanto eles – posso começar a ouvir e a viver com as pessoas de maneira autêntica e verdadeira. Mas isto não vem sem a tal “Revolução Copernicana”: perceber que não é o mundo que gira em torno de nós, mas nós que somos mais um astro nesse universo infinito e diverso.

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