Um mundo novo no horizonte

Estamos no início da segunda década do século XXI e creio que – agora categoricamente – podemos afirmar que nos aproximamos de uma Nova Ordem Mundial. Desde a queda do Muro de Berlim no final dos anos 80 que o mundo espera uma nova configuração geopolítica internacional, como numa fase embrionária. Sorte nossa que houve a tal Grande Crise em 2009, que escancarou as coisas mais rapidamente: os EUA e a Europa já não tem mais o mesmo fôlego e não tem muita perspectiva com os líderes indecisos que tem (o que JP Coutinho fala em seu texto abaixo); a América Latina poderia estar em destaque, mas também são seus incompetentes líderes que a proíbem de ir adiante; a China está na direção de ser a maior potência do mundo com seu “comunismo de mercado”; o Oriente Médio e a Arábia são cada vez mais um barril de pólvora, espalhando seu receituário islâmico pelo mundo; a África continua esquecida. Eis a receita do mundo que enfrentaremos daqui pra frente. Tenhamos consciência disto.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Os burros da Europa


Os “líderes” europeus lembram a fábula do burro no meio da ponte, incapaz de optar por um lado


E agora, Europa? Boa pergunta.
Sim, o “projeto europeu” era uma ideia nobre. Foram duas guerras mundiais, 75 milhões de mortos, o descrédito civilizacional do Velho Continente. Em 1950, chegava a hora de sentar as nações da Europa na mesma mesa. Partilhar interesses, contribuir para a prosperidade geral.
Mas eis que surgiu a tentação utópica: e se a Europa desejasse ser mais que isso? Não apenas um grande mercado comum -mas uns Estados Unidos da Europa, capazes de rivalizar com os originais Estados Unidos da América? Acenderam-se luzes vermelhas entre os mais céticos. E alguns lunáticos, entre os quais me incluo, lembravam com alarme que a Europa não era os EUA. A Europa surgia marcada por uma diversidade de identidades nacionais (e nacionalistas) que não poderiam ser submergidas por um único diretório político.
A história era o melhor retrato dessa evidência: as tentativas de uniformização política do continente, pelo menos desde Carlos Magno, tinham gerado a exata conflitualidade que pretendiam suplantar.
Os federalistas moderaram a ambição. Passaram para o plano B. E o plano B não era defender abertamente a opção federalista. Era introduzir na “construção europeia” elementos criptofederalistas que, cedo ou tarde, acabariam por conduzir a Europa ao seu destino prometido. A moeda comum foi apenas o instrumento mais ambicioso.
Pergunta fatal: mas seria possível que diferentes países, com diferentes estruturas econômicas, pudessem partilhar uma moeda comum? Nada na história autorizava esse otimismo. Só que considerações econômicas nunca entraram na cabeça dos arquitetos do euro, que até acreditaram ser possível a existência de uma moeda comum sem um Tesouro central.
Para eles, o euro não era uma moeda; era o passaporte para a última etapa do projeto federal. E, se rolasse alguma crise, melhor ainda: como dizia Jacques Delors, antigo presidente da Comissão Europeia, as “crises benéficas” seriam a alavanca da “construção europeia”.
A crise acabou por chegar. Pena não ser benéfica. Nem poderia. O euro, ao permitir baixas taxas de juro e facilidades inéditas no acesso ao crédito, era um convite para o endividamento ruinoso dos países do sul. Países sem disciplina orçamental ou crescimento econômico visível.
Para agravar a espiral de endividamento, a crise financeira de 2008 obrigou os Estados a um esforço suplementar para salvar a economia real. Quando chegou a conta, não havia como a pagar. Pior: no passado, quando os países deficitários da Europa ainda tinham moeda própria, era sempre possível desvalorizá-la, reganhando competitividade. Uma moeda comum impedia agora esse velho expediente.
Vieram os pacotes de resgate para Grécia, Irlanda e Portugal. E, com eles, medidas de austeridade. Simplificando, a ideia era despejar dinheiro sobre países insolventes, obrigando-os também a amputar, com aumentos brutais de impostos, qualquer possibilidade de crescimento econômico. Não vale a pena perder tempo com a lógica da coisa. Exceto para dizer que, por ora, a economia grega está liquidada; e Atenas só tem dinheiro até outubro. E agora, Europa?
Os “líderes” europeus, se merecem esse nome, reuniram-se na Polônia para decidirem nada decidir. Há quem os critique pela paralisia evidente. Eu compreendo essa paralisia. Ela faz lembrar a fábula do burro que está no meio da ponte, incapaz de optar por qualquer um dos pedaços de feno que estão nas duas extremidades.
Eis os “líderes” da Europa: burros no meio da ponte. De um lado, a opção federalista. Uma opção que os eleitorados -do norte e do sul- rejeitam por diferentes motivos. Os do norte, por não quererem assumir, agora e sempre, as dívidas dos do sul; e os do sul, por não quererem a alienação da sua soberania, agora e sempre, para os do norte. Do outro lado da ponte, um calote grego, a possível saída do euro e a desagregação da União Europeia. Com consequências -políticas, econômicas- imprevisíveis.
Na fábula, o burro fica no meio da ponte e, indeciso, morre de fome. Talvez essa seja a estratégia dos burros da Europa. Morrer. Mas de vergonha.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2009201116.htm

Anúncios
Explore posts in the same categories: Política, Viagens

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: