Contemplando a maldade

João Pereira Coutinho fala hoje em sua coluna sobre o filme “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, lançado em 1971. Nunca assisti a obra inteira, mas sei muito bem do que se trata: um filme violentíssimo, sem nenhum tipo de pudor ou meio-termo, que conta a história de Alex, jovem delinquente, ladrão, assassino e estuprador, que é mandado a um reformatório, e – submetido a técnicas “psico-terapêuticas” – sai de lá um bom cidadão. Uma dos maiores questionamentos feitos sobre ele é até onde pode ir o poder do Estado, excluindo a liberdade das pessoas para torná-las todas iguais de acordo com a medida da boa convivência.

Teria muito o que comentar sobre o aspecto político, mas o texto veio num momento a calhar por outro motivo: há poucas semanas tivemos o Rock in Rio, evento com muitas atrações musicais de meu agrado. Muitas delas utilizam a mesma estratégia de Kubrick: retratar na arte a “barbárie” da civilização humana, para que nos questionemos até que ponto nossa sanidade é segura e verdadeira. Muitas vezes sou criticado por escutar tais músicas, e o caso do “Laranja Mecânica” é emblemático. É lógico que no cinema as coisas ficam sempre mais violentas e explícitas, mas é sempre bom estarmos lembrando que não somos pura lã: ao contrário, sem a Redenção somos é entregues ao que há de pior dentro de nós. O livre-arbítrio que nos permite amar é o mesmo que nos deixa a um passo da selvageria. Cuidemos dele.

 

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Civilização e barbárie


Será legítimo que o Estado destrua a liberdade individual para recriar uma natureza humana benigna?


 
Stanley Kubrick vem a São Paulo. Não o Kubrick real, morto em 1999 para prejuízo de todos os artistas e aficionados. Falo de uma das suas criações, “Laranja Mecânica” (1971), em cópia restaurada para a 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É nesses momentos que uma pessoa lamenta sinceramente estar na Europa.
“Laranja Mecânica” foi o primeiro filme “adulto” a que assisti na vida, sem vigilância paternal. Foi uma bela iniciação à filosofia política, e relembro cada fotograma como se tivesse sido ontem. Sobretudo o rosto de Alex, espantoso Malcolm McDowell, que mais tarde reencontrei, ou redescobri, nos filmes de Lindsay Anderson ou Paul Schrader. Mas divago.
Alex era o rosto do mal. Do mal puro, perverso, sem justificação “médica” ou “sociológica” possível. Ele vagueia pelas ruas e, ao som de Beethoven, seu herói romântico, espanca e estupra. A moralidade judaico-cristã não existe para Alex. Ou só existe para ser quebrada. Alex destrói porque pode. Destrói porque gosta.
Foi a violência de “Laranja Mecânica” que me impressionou. Mas não apenas a violência de Alex: gráfica, óbvia, caricatural, dir-se-ia até musical -a sequência em que Alex espanca mais uma vítima ao mesmo tempo em que canta (e dança) “Singin’ in the Rain” rivaliza em vitalidade com Gene Kelly no filme “Cantando na Chuva” (1952).
A grande violência do filme vem a seguir: quando Alex, finalmente capturado, é submetido a uma terapia radical destinada a extirpar os seus instintos destrutivos e antissociais.
Quem viu não esquece: uma série de imagens projetadas na tela da prisão -imagens torpes, insuportáveis- que Alex consome de olhos abertos, bem abertos, forçadamente abertos. Ele, a violência em pessoa, não suporta o excesso de violência que é obrigado a tragar durante horas e horas de tortura e imobilidade.
No fim do ordálio, Alex é um caso de “sucesso”: uma espécie de lobotomizado social, pronto para ser posto em liberdade. Ou, pelo menos, nós acreditamos que sim.
Só mais tarde li o romance de Anthony Burgess (razoável) e as entrevistas (excelentes) do criador sobre a criatura. Admito: Burgess pode ser um inestimável fanfarrão e, segundo o seu biógrafo, Roger Lewis, um plagiário incorrigível.
Mas as inquietações de “Laranja Mecânica” permanecem vivas: será legítimo que o Estado destrua a liberdade individual para recriar uma natureza humana benigna?
Em teoria, talvez o programa seja apelativo: quem, em juízo perfeito, não gostaria de viver numa sociedade onde os criminosos são “reciclados” e, após terapia de choque, regressam ao mundo mais inofensivos que um cordeirinho?
Burgess entende o apelo. Kubrick também. Mas em “Laranja Mecânica” confrontamo-nos de imediato com as limitações desse programa.
Para começar, ele é ilusório: a natureza humana é insondável, e a violência que existe nos homens fará sempre parte da sua imperfeita condição. Podemos disfarçar, ou reprimir, essa violência. Ela não ficará adormecida por muito tempo.
Mas, mesmo que esse programa fosse possível e eficaz, existe uma segunda limitação: ele acabaria por destruir o sentido moral mais básico das sociedades humanas onde vivemos.
O que define um agente moral, pergunta Burgess? A resposta é clássica: o seu livre-arbítrio. Noções de “culpa” ou “responsabilidade” só existem porque existe a ideia prévia de que não somos marionetes. Somos agentes autônomos, responsáveis pelos nossos atos. É por esses atos que devemos ser julgados.
Depois da “reeducação”, Alex pode sorrir, falar, caminhar. Ele parece um ser humano.
Mas nós sabemos que ele não é mais um ser humano. E não é porque aquilo que nos define -a possibilidade de escolhermos, e mesmo de escolhermos erradamente- foi amputado no laboratório. Alex é essa marionete. Um mero cachorro amestrado.
Assistindo a “Laranja Mecânica”, entendemos que há crimes de Estado tão grotescos e imperdoáveis como os solitários crimes de Alex.
E entendemos também como o equilíbrio entre a civilização e a barbárie é frágil. Tão frágil que, por vezes, esses dois extremos trocam de lugar.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1810201119.htm

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