Santa Amizade!

Santos Basílio Magno e Gregório Nazianzeno

“Depois da primeira educação familiar, [Gregório] frequentou as mais célebres escolas da sua época: primeiro foi a Cesareia da Capadócia, onde estreitou amizade com Basílio, futuro Bispo daquela cidade, e deteve-se em seguida noutras metrópoles do mundo antigo, como Alexandria do Egipto e sobretudo Atenas, onde encontrou de novo Basílio (cf. Oratio 14-24: SC 384, 146-180). Reevocando a sua amizade, Gregório escreverá mais tarde: ‘Então não só eu me sentia cheio de veneração pelo meu grande Basílio devido à seriedade dos seus costumes e à maturidade e sabedoria dos seus discursos, mas induzia a fazer o mesmo também a outros, que ainda não o conheciam… Guiava-nos a mesma ansiedade de saber… Esta era a nossa competição: não quem era o primeiro, mas quem permitisse ao outro de o ser. Parecia que tínhamos uma só alma em dois corpos’ (Oratio 43, 16.20: SC 384, 154-156.164).” Trecho da Audiência do Papa Bento XVI em 8 de agosto de 2007, sobre São Gregório Nazianzeno

Como primeiro texto desta coluna, ganhamos um presente: não um santo, mas dois. A Igreja celebra no dia de hoje estes dois homens que viveram no século IV e que foram amigos próximos. E é nesse tema que gostaria de focar: a amizade. É comum ouvirmos por aí histórias de santos que tiveram grandes amigos, também eles santos. Com Basílio e Gregório não foi diferente, o que retrata muito bem o trecho da Audiência do Papa sobre o assunto acima. São santos porque unidos, são unidos porque são santos; mas não são iguais. Tiveram histórias de vida muito diferentes, que se entrelaçaram em vários momentos. Tinham temperamentos, costumes e personalidades também muito distintas, mas que não impediram de que tivessem “uma só alma em dois corpos”. Eis a essência da amizade, da mais profunda e sincera relação de amigos.

Amigos são mesmo assim: pessoas de origens e características diferentes, mas que em determinado ponto da vida se cruzam e se permitem conviver. Gregório foi estudar em Cesareia, cidade de Basílio. O primeiro, menino simples de uma cidadezinha do interior, admirado desde cedo pela vida de contemplação cristã, já que seu pai era bispo. O segundo, garoto inteligente, apaixonado pela cultura helênica e pela retórica dos gregos. Vão juntos estudar em Constantinopla, capital mundial da época, e depois em Atenas, origem de todo o conhecimento ocidental. Eis o que os liga: o desejo pelo estudo, pelo conhecimento. Quando a amizade é vivida no compartilhamento de coisas boas, não há como haver discórdia e contendas.

Finalizados os estudos, Gregório volta para sua cidadezinha, e dedica-se à vida contemplativa. Rapidamente é ordenado sacerdote. Basílio, por sua vez, dedica-se às aulas de retórica e ciências, e demora um pouco mais para assumir a vocação na Igreja. Mas logo que é ordenado diácono, ganha prestígio e fama na região, tornando-se rapidamente bispo. Inicia-se, então, um novo período na amizade dos dois, agora na vida adulta: unidos pelo combate às divisões que surgiam na Igreja, vivem juntos e compartilham de muita experiências. Basílio insiste que precisava de Gregório como bispo para melhor atingir seus objetivos na luta contra os arianos. Contra sua vontade, Gregório aceita, mas nunca assume o papel que o amigo havia lhe desejado (ser amigo não é também fazer tudo o que o outro quer). Logo o eloquente Basílio morre, e o tímido e calado Gregório leva adiante as ideias do velho companheiro, à sua maneira.

O que quero traçando um perfil da amizade desses homens? Não só contar uma história bonita de dentro da tradição da Igreja, mas fazer com que nos reconheçamos nessa história. Também nós, sem dúvida, tivemos nossos amigos nos tempos de estudos, que se aproximaram e se tornaram íntimos de nós, apesar das diferenças. E porque muitas vezes não levamos adiante tais relacionamentos tão bonitos? Talvez nos falte o que os santos tem de sobra: a humildade no relacionar-se. Como Gregório diz, ele competia com seu amigo Basílio não em ver quem era melhor, mas quem fazia do outro o melhor. Se em vez de ajudarmos os amigos, os julgamos e culpamos, nunca seremos íntimos o suficiente para abraçar uma amizade. Que neste novo ano tenhamos a humildade e sabedoria de transformar aqueles que aparecem em nossos caminhos em grandes amigos de estrada.

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