Nas profundezas da nossa superfície

Começa mais um ano e os problemas do mundo não tardam em aparecer: é a economia europeia indo de mal a pior, as chuvas matando pessoas no país, navio virando na Itália, ministro sendo acusado de corrupção. Tudo do mesmo jeito e da mesma maneira como acabou 2011. Garanto que assim também está no nosso microuniverso: contas a pagar, problemas a solucionar, pessoas a conviver. Somos chamados – convocados – a resolver nossos problemas e dar a nossa contribuição na solução de todas as outras questões da sociedade. Isso passa precisamente na maneira como nós encaramos a vida e as pessoas; afinal, os problemas do mundo não são políticos, econômicos, sociais ou religiosos: são humanos.

Passados já três anos de convivência na universidade, descobri que os entendidos e doutores querem tratar de todos os problemas numa “superficialidade profunda”. Os praticantes desta modalidade estão em pleno crescimento, já que muitos hoje se julgam sábios e entendidos (sem saberem muita coisa). Talvez seja a televisão que tenha trazido essa impressão de omnisciência pra todos nós. Esse primeiro grupo vai fundo nas questões, especula causas, arrisca hipóteses; mas não passa da superfície da questão, por considerar que são as consequências que fazem os fatos, e não o contrário. Na economia, na política, na pobreza, na cracolândia, o que há é gente, não fatores de uma tabela social, seja ela um “organismo vivo” ou uma “luta de classes”.

Mas é óbvio que ainda existem aqueles simples e humildes que vivem numa “superficialidade superficial”, não querem saber dos avanços da tecnologia, não gostam de ir em médico, nem de conversar sobre política. Muitos deles encontram na religião a saída para o “deixa a vida me levar”, sem questionar muito o que se sucede em si mesmo e no derredor. E aí a família vai perdendo a configuração, os filhos vão se envolvendo em becos-sem-saída, o casamento perde a graça, a omissão social explode em sintomas muito claros, mas às vezes longe dali. No alto intelecto, isto é disfarçado por um nihilismo destruidor e desconstruidor de tudo, até de si mesmo. É a outra face do “liberalismo moral” que tanto falei ano passado e que vai causando morte e descaso a cada passo que dá.

Qual seria a conclusão óbvia deste texto? Falar que deveríamos partir para a profundidade de nossas vidas, sermos conscientes de nossa existência e percebermos a vida que flui em todos os âmbitos pessoais, mais ou menos como em “Avatar”. Mas não há como negar que o homem – apesar de todo o esforço – não consegue ir muito além do superficial, que apesar de todos os avanços científicos não resolveu seus problemas mais graves, que mesmo quando destrona Deus de seu império ainda não vê avanço na sua felicidade e realização pessoal. Somos superficiais, como que cegos que enxergam e esquematizam todas as coisas – como faço nesse texto – mas que não veem maneira de praticamente transformar a própria realidade, no calor dos minutos.

Cabe-nos adotar, portanto, uma “profundidade superficial”, como que mesmo sem sair da nossa incapacidade de ver, possamos estar sempre com os olhos prontos a enxergar além. Não nos contentar em observar os “fatos sociais”, ou buscar soluções pros “ruídos na comunicação”. Não equalizar a macro ou microeconomia, ou tentar pregar a emancipação cidadã dos que sofrem pelas vielas do esquecimento da mente humana. Querer adotar a profundidade como ponto-de-vista é como deixar o coração “ao Alto”, como fiz de tema para esse ano: é, na verdade, olhar o mais simples dos simples aspectos: o do ser humano que existe por trás de cada estatística, de cada reportagem, de cada um que cruza nossa vida. Simplicidade que na nossa “superficialidade profunda” desistimos de nos dar ao luxo de prestar atenção.

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One Comment em “Nas profundezas da nossa superfície”

  1. Padre Sandro Says:

    Apenas um comentário “superficialmente superficial” ▬ De todo modo é uma experiência interessante a de aprender a mergulhar no rasinho. Ouvidos atentos ao Mestre: “avancem para águas mais profundas”. Se preciso Ele abrirá o mar. Se preciso Ele fará caminhar sobre as águas. Só não se pode acovardar diante da tarefa de conhecer-se e conhecer os outros. Pax!!!


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