Choques culturais são naturais?

São Paulo Miki e seus 25 companheiros mártires japoneses

O cristianismo chegou ao Japão pelas mãos dos missionários jesuítas, na época das Grandes Navegações de comércio, colonização e exploração da Ásia. Foi principalmente pelo serviço dedicado de São Francisco Xavier que a Igreja se fez presente na Índia, China, Indonésia e Japão. Neste último, o santo teve várias dificuldades em dialogar e se manter, mas lá deixou uma comunidade disposta a levar a religião (então ilegal) adiante. Formou-se um grupo tão fervoroso que em 1597 foram colocados firmemente pelo imperador Hideyoshi diante de sua fé: ou desistiam do cristianismo, ou seriam crucificados, conforme o Mestre que pregavam e seguiam. A segunda opção foi a escolha de 25 homens e uma mulher, a maior parte deles japoneses, que foram martirizados na cidade de Nagasaki.

O trabalho dos missionários (principalmente da Companhia de Jesus) na Ásia foi (e é) muito criticado, sendo inclusive São Francisco caracterizado em muitos lugares como um perseguidor impiedoso, inquisitor e incapaz de dialogar ou ceder em seu ponto-de-vista. Muito parecido com o retrato traçado do Beaventurado José de Anchieta, missionário que realizou basicamente as mesmas coisas em terras brasileiras. As situações são muito distintas, tanto quanto eram (e ainda são) as culturas asiática e americana; mas as duas realidades trazem à tona algo muito mal resolvido na história humana, e que ainda hoje faz sentir suas incontroláveis e inevitáveis consequências: o choque entre culturas.

Desde a diáspora dos ancestrais do homem – realizada em algum ponto da pré-história ainda não mapeado pelos cientistas – quando o ser inteligente resolveu sair do seu berço de surgimento e ganhar o mundo, foram sendo criadas e desenvolvidas culturas diferenciadas de acordo com o local de estabelecimento de determinada comunidade. Num processo um tanto quanto nebuloso, mas que ainda é claramente perceptível hoje, cada grupo cria sua própria língua, crença, arte, técnicas de manejo de recursos, de criação das crianças, etc. De pequenas tribos familiares, a cultura desenvolveu-se para grandes civilizações por volta do ano 3.000 a.C., com o surgimento dos babilônios, egípcios e gregos, com seus sistemas de governo, de seguridade social e de manutenção da ordem.

Não demorou muito para que esses grandes e diferentes grupos de encontrassem, interagissem, chocassem mesmo, colocando em evidência suas diferenças e suas semelhanças, travando entre si laços de amizades e de guerras. Com o passar dos séculos isso foi se tornando mais claro e intenso em cada canto do mundo: a dominação persa, o Império Romano, a invasão bárbara do norte da Europa, o surgimento do Império de Mohamed, as guerras asiáticas entre chineses, coreanos e japoneses, o extermínio asteca pelos maias, até chegarmos no período das Grandes Navegações e o encontro entre europeus e ameríndios, europeus e africanos (e suas milhares de etnias que se escravizavam), muçulmanos e africanos, asiáticos e europeus, europeus e turcos otomanos. E hoje ainda o encontro de povos desperta xenofobia, perseguição e violência.

Como resolver todo esse panorama de culturas diferentes e distantes que se encontram, provocando resultados muitas vezes aterradores, como extermínios, genocídios e diásporas? Haveria uma maneira dessas culturas não se encontrarem? Existiu a possiblidade de algum dia o homem não ter se dividido e se tornado tão estranho um para o outro? A resposta é não. A cultura é – com todos seus fatores desagregadores – um tesouro que só o homem – racional e criativo que é – pode ter. A tentativa de infiltrações entre culturas também é natural, e a reação a isso também é.

O que pode e deve ser feito, então? Arrisco: uma conscientização geral de que, além das culturas, costumes e aparências, existe um ser humano, idêntico em todos os cantos, com suas qualidades e defeitos. E na maioria das vezes é a própria ciência, a técnica e o comércio que tentam nos convencer do contrário, e se esforçam por objetivar o homem. Por isso, não devemos culpar São Francisco, nem São Paulo Miki, nem seus companheiros, por terem tentado viver sobre a égide de uma religião, de uma cultura, e fazer dela a realidade de suas vidas. A culpa não é da religião, nem da cultura: é do egoísmo do homem.

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