Cristãos: alegres e felizes?

São Gabriel de Nossa Senhora das Dores

Recordamos os seus dias. Tem a aparência comum. Ao invés, nunca encurtados pela rotina. Mártir e poeta do quotidiano. O quotidiano foi o seu pão, a simplicidade o seu heroísmo, o ordinário o seu canto. As pequenas e as frágeis coisas de cada dia, tornavam-se grandes pelo espírito com o qual as realizava. Com essas desenhou o mosaico da sua santidade. Repetia muitas vezes: “Deus não olha o quanto mas o como, nossa perfeição não consiste em fazer coisas extraordinárias mas no fazer bem as coisas ordinárias”. O seu diretor revelará o segredo da sua santidade com uma expressão lapidar: “Gabriel trabalhou com o coração”. – Portal Passionista

Semana passada foi uma das mais interessantes e típicas da cultura brasileira, talvez de todo o ocidente: o binômio Carnaval/Quarta-Feira de Cinzas. O carnaval surgiu na Europa durante a Idade Média, com o propósito claro de alguns dias de “farra” antes de entrar no tempo que a Igreja chama de Quaresma, período de cerca de 40 dias antes da festa da Páscoa de Cristo. Nessa época, os ares quaresmais eram severos; os padres, gozando de respeito e total obediência do povo, prescreviam fortíssimas abstinências, em especial àqueles que se dirigiam a eles com consciência pesada da vida “bem vivida”. Num texto antigo já explorei esse raciocínio interessante: em vez de mudarmos para não errarmos, vamos errar de uma vez, já que chamarão nossa atenção mesmo. Tipicamente infantil.

Por que bato nessas teclas tão desgastadas? Pra refletir um pouco sobre essa duplicidade: a alegria do Carnaval e a tristeza da Quaresma. Num mundo onde prescrições de abstinência e sacrifício não fazem sentido nem para pais e filhos, tudo fica ainda mais escandaloso: “como podem esses católicos se colocar de propósito num tempo de sofrimento, tristeza e sacrifício? Só pode ser masoquismo.” Tal interpretação gerou – e ainda gera – divisões dentro da própria Igreja, com movimentos e seitas dissidentes que buscam um “Cristo mais alegre”, uma religião mais “animada” e “jovem”. Não entro no mérito da questão ser válida ou não, mas gostaria de afirmar – categoricamente – da existência de uma “alegria católica”, a qual não tem nada a ver com qualquer movimento carismático de plantão.

Ao contrário, meu exemplo de vida hoje brota do jovem Gabriel, seminarista passionista. Para quem não sabe, a Congregação da Paixão de Jesus Cristo, é uma entidade unida à Igreja Católica cujo centro da vida de seus religiosos é a meditação na Morte e Paixão de Jesus. Parece mais um exemplo da auto-destruição do católico, não? Mas é exatamente do meio desses homens que surge o exemplo de São Gabriel, conhecido na Itália como o “Santo do Sorriso”. Seus amigos o chamavam de “o Bailarino”, pela leveza e alegria nos movimentos, trato com as pessoas e modo de realizar as coisas do dia-a-dia, conforme mostra o trecho que colei no cabeçalho. Rapaz do século XIX, gostava de caçar, de ir ao teatro e ler bons romances. Quando criança, a alegria da casa; quando adolescente, a festa do colégio; quando jovem, a energia do convento.

Por fim, surge o questionamento: “esse tal Gabriel deve ter sido um vagabundo, gozador das coisas do mundo, que se escondeu por detrás da batina para continuar na boa vida!” Não, não foram poucos os sofrimentos da vida do rapaz. Sua mãe morreu quando tinha ele quatro anos; dos seus doze irmãos, oito morreram antes da juventude; passou por várias doenças que quase não resistiu. Ainda assim, permanecia firme, feliz e expontâneo, confiante devoto que era de Nossa Senhora das Dores, aquela da espada cravada no peito. Morreu aos 24 anos. Essa é a diferença da “alegria católica” das outras: enquanto no Carnaval, uma desgraça transforma o riso em prantos, a bebida em lágrimas, na serenidade cristã, as cruzes da vida são artífices da nossa esperança. Rogai por nós, sorridente Gabriel!

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