A Volta da Primeira-Ministra

Não há nada mais abominado na ideologia brasileira hoje – principalmente nos intelectuais da universidade – do que a ideologia liberal. Ser defensor do liberalismo e ser católico são duas posições que as mentes pensantes consideram praticamente práticas terroristas, por simples preconceito e ignorância. Quem olha pra história do mundo sem o crivo da ideologia reinante e sem ser entre os fios de barba de Marx consegue ver os benefícios de ambos. Nos EUA e na Europa, onde há um pouco mais de discernimento, pessoas como Pio XII e Margaret Thatcher não são demônios que só deixaram coisas boas no mundo quando pararam de respirar. A atriz Meryl Streep venceu o Oscar de melhor atriz interpretando a Dama de Ferro no último domingo. JP Coutinho faz, então, um ótimo elogio à atriz e – principalmente – à estadista.

 

27/02/201202h23

A dama de ouro

DE SÃO PAULO

Meryl Streep recebe o Oscar de melhor atriz por “A Dama de Ferro”, batendo Michelle Williams em “Minha Semana com Marilyn”. Nunca esperei ver isto: o dia em que Hollywood preferiria Margaret Thatcher a Marilyn Monroe.
Verdade que não havia alternativa: “A Dama de Ferro” é Meryl Streep do princípio ao fim. De tal forma que, a meio do show, já não sabemos se é Meryl Streep quem interpreta Margaret Thatcher ou se a própria Thatcher tomou conta da tela e mandou Streep para casa.
Mas a vitória não é apenas artística. Espero. Quero acreditar que é também o reconhecimento possível, embora tardio, de um dos nomes mais importantes do século 20. Comparável a Churchill na política mundial?
Sem dúvida. O velho Winston esteve certo, desde o início, sobre a ameaça nazista na Europa e a necessidade de a enfrentar e derrotar sem compromissos de qualquer espécie. Foi a sua batalha solitária durante toda a década de 1930, perante o silêncio (e o riso) da “intelligentsia” britânica.
Margaret Thatcher também conheceu esse silêncio – e esse riso. Não apenas por ser mulher num mundo de homens (também). Mas porque havia na elite política britânica duas ideias que era heresia contestar.
A primeira ideia lidava com a natureza alegadamente imperecível do regime comunista. Para que afrontar Moscovo, perguntavam os iluminados da época, quando a “cortina de ferro” que descera sobre a Europa estava para durar?
Thatcher nunca comprou essa versão: uma ditadura inumana, como a comunista, teria que ser derrotada por uma mistura de diplomacia agressiva e por uma corrida armamentista que a União Soviética não conseguiria, como de fato não conseguiu, suportar. Thatcher chegou ao poder em 1979. Em 1989, dez anos depois, caía o Muro de Berlim.
Mas Thatcher esteve igualmente certa ao confrontar uma segunda ideia que, desde 1945, era intocável para trabalhistas ou conservadores: a ideia generosa de que o Estado poderia crescer indefinidamente, substituindo (ou “complementando”) as forças “incontroláveis” do mercado.
Thatcher nunca participou na fantasia: a estatização da economia britânica não conduzira apenas o país à triste estagnação em que ele se encontrava na década de 1970. Seguindo o raciocínio do economista austríaco Friedrich Hayek, uma das suas referências intelectuais, o crescimento incontrolado do Estado era uma ameaça à própria liberdade individual. Thatcher empenhou-se, como nenhum outro político britânico depois da Segunda Guerra, em reverter esse crescimento.
A juntar a tudo isso, convém recordar a desconfiança de Thatcher face ao projeto federalista europeu. Não que a premiê fosse hostil a uma comunidade econômica de nações livres. Desde que essa comunidade não fosse uma ameaça para a soberania – política, econômica, monetária – dos seus membros.
Hoje, com a Europa a arder por causa de uma moeda comum totalmente utópica e insustentável, o euroceticismo de Thatcher, que na verdade a liquidou politicamente em 1990, é mais uma prova da sua clarividência.
Regresso ao início: Margaret Thatcher venceu Marilyn Monroe? Depende da perspectiva. François Mitterand, antigo presidente francês, deixou para a posteridade a melhor caracterização de Maggie: “Ela tem os olhos de Calígula e os lábios de Marilyn Monroe”.
Pensando melhor, Marilyn também teve uma vitória na noite de ontem em Hollywood.

Por João Pereira Coutinho

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/1053911-a-dama-de-ouro.shtml

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