A juventude é o veneno da alma

Muitos são aqueles que me dizem invejar a idade que tenho. “No auge dos meus vinte e tantos anos eu estava feliz”, dizem. Talvez queiram dizer “fazendo muito mais do que você faz”… Mas só existe uma coisa pior do que velho com síndrome de juventude: o próprio jovem. É de dar asco ver senhores da casa dos 50 anos com desejo de adolescência tardia, buscando revalorizar em si o que há muito – felizmente – se perdeu. É uma procura desenfreada por tudo aquilo que com muito custo venceram, uma inversão perversa de valores e sentidos que demoraram pra construir na vida. Tal fase é comum aos homens e não às mulheres: talvez as indas-e-vindas hormonais delas as privem de tais pensamentos covardes e ignorantes.

Mas volto a falar que esses homens que arranjam mil problemas em tal época de “segunda juventude” não conseguem ser tão funestos quanto a própria juventude. Sei que tal afirmação pode causar certo escândalo, mas não consigo parar de pensar sobre ela, nem mesmo contrariá-la, por mais argumentos altamente elaborados que possa usar. A juventude é o veneno da alma.  E isso se dá exatamente pelos mesmos fatores que a maioria das pessoas a consideram uma bênção. Inclusive os próprios jovens, que amam ser quem são. As crianças querem ser jovens; os velhos querem ser jovens. Talvez seja a mente humana acostumada a viver na agonia profunda das ilusões e das aparências.

Primeiramente: o jovem é venenoso pela sua beleza. Diriam alguns que até os que estão um pouco acima do peso na juventude tem uma “gordura bonita”. A pele sem flacidez nem rugas, o cabelo ainda todo em seu lugar, os seios das mulheres ainda mirando acima da linha do horizonte, as cores dos cabelos naturalmente belas e radiantes, corpos esbeltos, fortes e tonificados. Tudo isso resume a beleza do jovem, no mais puro estilo helênico de descrição e admiração da realidade. Que traz, porém, a beleza ao jovem? De que serve, pois, sua formosura, a não ser para dar formas às artes de Da Vinci e Michelangelo? Serve para iludi-lo: o espelho mostra o que ele em absoluto não é. Esconde suas misérias, seus erros, e faz esquecê-los. Como se a beleza do corpo fosse beleza da alma; ao contrário: é veneno.

Segundo grande erro que atinge a juventude, razão de vanglória e de equívoco: sua força. O moço e a moça são fortes, praticam esportes, aguentam jornadas de trabalho/estudo num ritmo insuportável para alguém com mais idade. Vão às festas e lá permanecem até a madrugada no consumo de substâncias que derrubariam qualquer corpo mais débil. Mas o jovem é altivo, potente e inabalável. Doenças, quando surgem, aparecem levemente e nada que duas ou três pílulas não resolvam. Para os homens, a potência os faz esnobar outro tipo de pílula: a azul. Lotam as academias para tonificar os músculos, um pouco pela aparência, outro pela força. Um braço raquítico não é apenas feio: é sinal de incapacidade, inutilidade. O jovem é multiuso, multipotente. Há erro maior frente à natureza da alma? Já que, afinal, somos tão débeis e incapazes de realizar as coisas por nós mesmos.

Por fim, o terceiro ponto (talvez até existam outros, mas me limito aqui à tríade): a imaturidade. Sim, não é a imaturidade que ilude o jovem, mas sua incapacidade de enxergar a própria ignorância. O rapaz olha a vida como quem está iniciando a escalada de um monte: vê árvores, pedras, plantas rasteiras, animais e fenômenos naturais. E crê que a vida seja realmente só isso: um encontrar de diferentes seres, formando um ecossistema perfeito movido a simbiose. O velho – o realmente maduro – olha para a vida como quem já está no cume do morro, ou ao menos já escalou grande parte. Olhando pra trás, certifica-se do que já passou, viu e sentiu: espinhos, concorrência, pedras soltas, buracos, armadilhas, feras selvagens. Tudo isso escapa aos olhos do jovem imaturo: a vida é bela e perfeita, e ainda brada forte (até partindo para a violência) contestando aqueles que dizem o contrário e quereriam acabar com sua alegria e vitalidade.

De todos estes argumentos – que gerei no meu íntimo por meio da observação e reflexão nos últimos tempos – percebi que a velhice é quando a alma assume a sua verdadeira figura. O velho já não tem mais a beleza: tudo é flácido, enrugado e esbranquiçado, não há mais prazer no nu nem no contemplar-se, mas sim no observar o que há dentro do outro. Não se julga nem se esconde: o idoso acaba por deixar transparecer seus defeitos, suas doenças e suas angústias. Fraco e aniquilado, precisa de ajuda, seja dos outros ou de equipamentos, para fazer as tarefas mais básicas. Maduro, olha para trás e percebe as serpentes que já avançaram sobre ele, e –portanto – não pisa mais em buraco suspeito. Na velhice e suas dores, a alma repousa; não está feliz, mas ao menos sabe de suas limitações e busca agora conhecer o que realmente vale na vida, recuperar os erros e pedir perdão. A velhice é a figura da alma.

Mas cabe ainda um “post-script” para falar das exceções, cuja regra as humilham de uma maneira insuportável e inaceitável. São aqueles jovens, que na flor da idade não apresentam o que deveriam ser: sofrem na feiúra do corpo, seja por algum defeito ou deficiência, por assimetria dos elementos do rosto e do corpo, por algum acidente que mutilou, por ser gordo, enfim, por fugir dos padrões. Também existem aqueles que penam na falta de força, na experimentação da doença (uns tão cedo!): as vítimas de acidente, de doenças sexualmente transmissíveis, dos cânceres, da depressão, da solidão. Precisam muitas vezes da ajuda dos próprios pais para sobreviver. E ainda aqueles que estão presos, ou envolvidos com organizações ilegais, ou em clínicas de recuperação, reconhecendo e pagando pelos atos que a imaturidade então ignorada os levou a cometer. Diante de todos esses, a “lei da juventude” – aclamada por todas as idades – não se lembra nem tem pena. Os exclui. Os ignora. Os mata, dia após dia. Minha oração a eles. Mal sabem que estão próximos da verdade: a verdade da feiúra, da fraqueza e do sofrimento. Afinal, a juventude é o veneno da alma.

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