A Páscoa e a Libido Sacarótica

Domingo de Páscoa, dia de quê? Ovos de chocolate, óbvio. É de se impressionar o movimento dos supermercados às vésperas desse domingão: os ambientes que até ontem estavam com tetos com ovos a se perder de vista tornam-se vazios, sendo as últimas novidades dueladas por consumidores ávidos. Presentear? Conquistar? Qual é  o sentido do ovo de páscoa? Aquela história do “ovo como símbolo da ressurreição” tenho certeza que não é. Também não acredito – em nenhuma hipótese – no mundo mercantil lavando os cérebros das pessoas.

O espírito da páscoa de chocolate atualmente tem nome: Cacau Show. O doce do cacau espetacularizado de uma maneira até então inédita para a classe “popular”. Comerciais na TV mostram ovos com recheios derretendo, trufas reluzentes, chafarizes de líquido cremoso do cacau. Ah, como isso atrai as crianças e, em especial, as mulheres. O comercial da Cacau está para a classe feminina como as propagandas de Brahma para os homens. É a fonte culinária da mais pura endorfina, levando-me a cunhar o termo “Libido Sacarótica”.

Não sei se é sintaticamente e morfologicamente correto de se dizer, mas o termo demonstra a natureza da paixão pelo doce: a simples sensação prazerosa que provém de tantas fontes, como exercício físico, bebida, drogas, sexo. Ó santa endorfina, tão buscada e aclamada pela nossa sociedade. Li há alguns meses um texto de João Pereira Coutinho afirmando a dificuldade do homem atual de viver na tristeza. A necessidade de prazer do homem é constante; um diálogo sério, sem piadas, é um martírio. É a libido pura e simples sempre em ação.

Mas isso é tão bom, não? Ter prazer, gostar das coisas, encontrar felicidade. Pena ser tão efêmera. Ilusória. Aprisionante. Penso que o ritual religioso que se inicia com a disposição dos ovos nas “casinhas” e “colméias” dos mercados e termina com o mês de abril como símbolo do consumo de chocolate, passando por semanas de sonhos e desejos acerca daquele ovo hollywoodiano, é o oposto convicto e concreto da ressurreição que a páscoa afirma. Mas como é difícil afirmar tal coisa! Como é inaceitável questionar o prazer! Duvidar dos personal trainers, doceiros, churrasqueiros, baladeiros e sexólogos é tarefa hercúlea. Mas me arrisco:

A prisão da droga e do vício. Eis a realidade dos anseios libidinosos que enchem o nosso coração. Eis a prisão daqueles que necessitam de fatores que são externos a si próprios para alcançar a felicidade. É a tristeza de se perseguir “sombras”, “caçar fumaça”, encontrar a presa e ela se esvair pelas mãos. Sei que é complicado concluir isso, algo que atinge especialmente as mulheres, sendo eu homem e não entendendo a loucura hormonal delas. Mas a natureza humana, seja masculina e feminina, não pode ser refém de desejos. Ninguém merece abrir mais um ovo e encontrar a surpresa de mais uma páscoa da mediocridade, da ilusão e da perda de tempo para encontrar o que realmente acalma e satisfaz. Corações ao alto!

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