Leões, ratazanas e homens

Bons e maus. Justos e corruptos. Opressores e oprimidos. Inocentes e culpados. Corajosos e covardes. Estas distinções maniqueístas do ser humano são muito utilizadas no senso comum e por algumas ideologias capengas que imperam por aí, mas são o que há de mais mentiroso ao se descrever a nossa espécie. O homem é exatamente a complementariedade de contrários. É óbvio que existem ações boas e ruins, da parte de todos, e que as útimas devem ser evitadas, mas realizar julgamento de pessoas só nos faz esquecer nossos próprios defeitos, nos enchendo de soberba, falsa como nota de três reais e danosa como uma de cem. JP Coutinho usa o exemplo do Titanic para discutir a questão no texto de hoje. Se você estivesse lá, seria um bravo ou uma “ratazana”? Nem um, nem outro: somos sempre humanos.

 

João Pereira Coutinho

História de um covarde

 Coragem e covardia são consequência imprevista de atos imprevistos a situações imprevistas

 Ficar ou não ficar, eis a questão. Passaram-se cem anos desde o naufrágio do Titanic. E eu, que escrevo essas linhas no dia 14 de abril e com o mesmo Atlântico Norte que engoliu o navio à minha frente, regresso ao dilema fatal: teria ficado com os restantes homens, enfrentando estoicamente o fim?
Ou, como uma ratazana amedrontada, teria pulado para o primeiro bote disponível, salvando a minha triste pele?
O magnata Benjamin Guggenheim ficou. História conhecida, provavelmente apócrifa, seguramente inspiradora: vestido a rigor, decidiu que a prioridade deveria ser concedida a mulheres e crianças. Como um cavalheiro, esperou pela morte no bar.
Não foi caso único: no Titanic, seguiam cerca de 2.300 pessoas. Morreram 1.500. Sobreviveram pouco mais de 700. Só 325 eram do sexo masculino. Entre os sobreviventes machos, estava o anti-Guggenheim por excelência: um nome que ficou na história do naufrágio como exemplo de egoísmo e covardia.
Chamava-se Bruce Ismay, era o diretor da companhia inglesa dona do navio e os seus contemporâneos nunca mais lhe perdoaram o gesto: Ismay pulou para um dos últimos botes do Titanic quando ainda havia mulheres e crianças a bordo.
Ele sempre negou esses fatos nos inquéritos posteriores ao naufrágio. Em Londres ou Nova York, a versão de Ismay era repetidamente a mesma: não havia mais ninguém em volta quando ele pulou; e, além disso, o bote já estava em plena descida.
Mas os números do naufrágio e testemunhos contraditórios sobre a conduta de Ismay a bordo selaram o seu destino. Pois bem: é precisamente esse destino que o escritor Frances Wilson revisita no melhor livro que li sobre o Titanic.
O título é de uma ironia cruel e merece ser citado na totalidade: “How to Survive the Titanic: The Sinking of J. Bruce Ismay” [“Como Sobreviver ao Titanic: O Naufrágio de J. Bruce. Ismay]. Nem mais.
Ismay sobreviveu ao naufrágio do barco. Mas o dia 14 de abril de 1912 marcou o início de um outro naufrágio. O naufrágio da sua alma.
A história é digna de Joseph Conrad e, sem surpresas, o livro dedica um capítulo inteiro a “Lord Jim”, a obra-prima de Conrad publicada 12 anos antes da viagem funesta do Titanic. É a história de um marinheiro que foge instintivamente de um navio acidentado para viver uma existência de desonra insuportável.
Mais do que profético, o livro de Conrad transporta a velha lição do mestre: o nosso destino depende, muitas vezes, de forças que não controlamos. Não apenas as forças tangíveis do próprio mar, que esmagam com violência toda a soberba humana. Mas também as forças pessoais -ou, melhor dizendo, as fraquezas pessoais que, em momentos decisivos, nos podem conduzir a um fracasso inapagável.
O personagem Jim do romance de Conrad é um homem que ama o mar e, talvez mais importante, ama a sua própria confiança pessoal. Até o momento em que essa confiança se converte em medo -e fuga.
O afundamento do Titanic foi demorado: duas horas e meia até mergulhar de vez nas profundezas do Atlântico. Mas o afundamento de Bruce Ismay demorou ainda mais: 25 anos de uma “existência póstuma”, escreve Wilson.
Os amigos foram desaparecendo. O gosto pela navegação também. As noites converteram-se em purgatórios de insônia. E a família, recusando-se a aceitar a existência de um covarde dentro de casa, determinou que a palavra “Titanic” jamais fosse pronunciada.
A Bruce Ismay restavam-lhe as temporadas solitárias na Irlanda rural. Fisicamente, morreu em 1937. Mas o óbito que interessa aconteceu em 1912. Quando, ironicamente, Ismay sobreviveu.
Ficar ou não ficar: será essa a questão? A cultura popular, a começar pelo maniqueísmo infantil do cinema de James Cameron, não tem dúvidas: entre coragem e covardia, Bruce Ismay optou pela covardia.
Lendo a “existência póstuma” de Ismay, conhecemos o preço desumano dessa opção. Mas também aprendemos que a coragem e a covardia não são matéria de reflexão teórica. São a consequência imprevista de atos imprevistos perante situações imprevistas. Como nos livros de Conrad, somos todos corajosos, somos todos covardes. E esperamos humildemente que o destino nunca se lembre de nos testar.

 Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/37510-historia-de-um-covarde.shtml

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