A correria em estado líquido

Bendirei o Senhor em todo o tempo,/ seu louvor estará sempre na minha boca./ Eu me glorio no Senhor/ ouçam os humildes e se alegrem./ Celebrai comigo o Senhor,/ exaltemos juntos o seu nome./ Busquei o Senhor e ele respondeu-me/ e de todo temor me livrou./ Olhai para ele e ficareis radiantes,/ vossas faces não ficarão envergonhadas./ Este pobre pediu socorro e o Senhor o ouviu,/ livrou-o de suas angústias todas./ O anjo do Senhor se acampa/ em volta dos que o temem e os salva./ Provai e vede como é bom o Senhor;/ feliz o homem que nele se abriga. – Salmo 33(34), vers. 2 a 9.

A chamada Oração Eucarística católica, centro da liturgia da Igreja, se inicia com o tema do blog desse ano: “Sursum corda”, do latim “Corações ao alto!”; e termina frequentemente com a expressão retirada do salmo acima: “Provai e vede como o Senhor é bom, feliz de quem nEle encontra seu refúgio: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” É uma mostra de como a Antiga e a Nova Aliança se entrelaçam e são dependentes entre si. Na realidade, ambas concentram a grande necessidade do homem de encontrar um “refúgio”, um “abrigo”, de poder repousar e descansar das dificuldades da vida. Todas as religiões e ideologias trazem esse aspecto embutido: para os judeus, o refúgio era o Deus de Abraão; para os cristão, é o mesmo Deus encarnado no Cristo Cordeiro; para os comunistas, é o Partido Proletário, etc.

Talvez no mundo de hoje vivamos em tal estado de ansiedade e prontidão que nos sufoque e nos torne “líquidos”, como diria Zygmunt Baumann: não encontramos nada de “sólido” onde quer que passamos. Somos levados a isso pelo excesso de estímulos que temos de todas as partes: do trabalho, das mídias, do lazer, da família. Quantos não desejariam que o dia tivesse mais que 24 horas! É importante, porém, diferenciarmos o que realmente é “ameaça”, para o que é realidade. Até porque considero a concorrência, pressão por resultados e excesso de responsabilidades algo bom: não fossem elas não realizaríamos nada na nossa vida, preferindo o marasmo da mediocridade, sem avançar ou fazer nada novo. Mas até que ponto devemos tornar nosso cérebro e nossa alma reféns da correria que parecem nos impor?

É certamente questão de perceber os tempos da vida, como diria o Eclesiastes: tempo de correr, tempo de parar; tempo de sorrir, tempo de chorar; tempo de cantar, tempo de calar. Ou não é verdade que em determinadas épocas da vida não somos nós forçados a parar um pouco? Seja por doença, por desemprego, por situações que surgiram da conjuntura, acabamos por ter de ver a “Sessão da Tarde”, pandemônio dos atarefados. Por que não estar mais consciente do tempo enquanto podemos? Por que não aproveitar quando temos saúde, oportunidade e disponibilidade de correr, fazer acontecer, realizando o crescimento nosso e da sociedade? Mas ao mesmo tempo, criando uma base “sólida” na nossa vida, que nos dê força, segurança, constância. Ela não é a cachaça, a pelada ou a namorada: é o Senhor, diz o salmista. Que ouçam os humildes e se alegrem!

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