O que une uma comunidade cristã?

Naqueles dias, o número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica. Os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário. Então os Doze Apóstolos reuniram a multidão dos discípulos e disseram: “Não está certo que nós deixemos a pregação da Palavra de Deus para servir às mesas. Irmãos, é melhor que escolhais entre vós sete homens de boa fama, repletos do Espírito e de sabedoria, e nós os encarregaremos dessa tarefa. Desse modo, nós poderemos dedicar-nos inteiramente à oração e ao serviço da Palavra”. Entretanto, a Palavra do Senhor se espalhava. O número dos discípulos crescia muito em Jerusalém, e grande multidão de sacerdotes judeus aceitava a fé. – Atos dos Apóstolos, cap. 6, vers. 1-4.7

Não demorou para aparecerem na comunidade cristã primitiva as primeiras divisões, reclamações, richas e contendas. O trecho de hoje dos Atos nos conta sobre uma divisão entre os discípulos “gregos” e os discípulos “hebreus”. É interessante perceber, primeiramente, que antes mesmo da conversão de São Paulo já houvesse uma boa quantidade de gregos no meio dos cristãos. A mensagem de Jesus foi direcionada primeiramente ao povo da Antiga Aliança, mas já em seus primórdios foi ouvida, acolhida e motivo de fé para pessoas de outros povos. O que essas pessoas ainda não tinham entendido é que no seguimento de Jesus não há “povos”, nem “classes”, nem “etnias”: somente uma só nação, com um só Rei, unida pelo mesmo Espírito. Mas já ali surge um “eles estão melhores que nós!”

É a questão da unidade, motivo de oração fervorosa da parte do próprio Cristo antes de sua morte, já prevendo que seria este um ponto sensível da tradição cristã. No século V, já se revoltariam os Coptas. No século XI, o grande cisma ortodoxo. “Gnósticos” surgiram por todos os cantos em todos os tempos. Nos meados de 1500, a grande Reforma Protestante. Ainda hoje, não param de surgir os “renovados”, os “reformadores”, os “verdadeiros apóstolos”, não só no seio da Igreja, mas também nas outras denominações que foram surgindo e se subdividindo. Mas por que o cristianismo acabou se marcando por esta separação, que mais do que diversificação é uma contestação da legalidade e sabedoria de uns para outros? Como podem cristãos como os mórmons se colocarem como “a nova comunidade primitiva” se até mesmo ela sofreu fraturas internas?

A grande questão que vejo é bem delimitada no texto acima, na postura dos apóstolos: não convinha a eles ficar discutindo as questões de divisão de bens e assistência social. Não que ela seja menor – mesmo que seja, diante da grandeza da Revelação – mas ela é necessariamente um ponto que quando ganha destaque demais é fonte de discórdia e disputas. No contexto dos Doze, quando Jesus ainda estava com eles, quem cuidava da bolsa do dinheiro era Judas Iscariotes. E ele a  roubava, com o conhecimento de todo mundo. E então? Que se faria? Que deveria fazer o Cristo? Brigar e discutir problemas financeiros? Eles devem ser pensados e planejados, mas o que mantém os cristãos unidos não é dízimo, oferta ou patrimônio; nem também esmola, cesta básica e inclusão social. É a fé no Cristo, aquele que salvou cada homem, mais do que da fome de pão, mas da fome de vida plena.

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