O que é a verdadeira amizade

Estava dias atrás passando o tempo tocando velhas canções no violão, que me levaram por uma jornada sinestésica a tempos já antigos: seis, sete anos atrás. Pensei então que momentos marcantes, bons ou ruins, deixam gravados na memória seus sons, seus cheiros, seus gostos. É a loucura da mente humana. Mas este momento, em especial, que recordei com a tal música, era bom. Era um momento de amizade, amizade verdeira, sincera, plena. E pensando nisso – e recordando como era bom tal sentimento – comecei uma daquelas viagens pensando sobre estes aspectos tão misteriosos da vida. O tema então foi a tal “amizade”. Há algo de muitíssimo especial neste estado de espírito; mas como tudo que envolve relacionamentos humanos, existem também os enganos e ilusões. Expresso o que me passou pela cabeça naquele momento.

Primeiramente, é importante definir o que é amizade. Quem são verdadeiramente nossos “amigos”, no sentido concreto e real do termo, que se tornou tão banalizado num mundo de conexões rápidas, individuais e efêmeras entre as pessoas, muitas vezes online. Lembrando dos tempos de colégio, pensei que amigos são aqueles que conseguem se relacionar um com o outro sem máscaras, sem barreiras, ou – como se diria no boxe – com a guarda abaixada. Pois como somos obrigados na nossa sociedade, a viver mascarados, mascarando e atuando o tempo todo! Como temos de montar personagens: o prestativo no trabalho, o responsável na escola/faculdade, o atencioso no casamento, o obediente na família, o piedoso na igreja, o consciente na política, etc. Estamos sempre posando, e o verdadeiro “eu” fica perdido em algum lugar desta bagunça.

Não estou dizendo que nosso verdadeiro ser não pode ser atencioso, prestativo, consciente: mas é óbvio que na realidade não somos tão bons e bacanas quanto buscamos parecer aos olhos dos outros. (Ou até mesmo, nos tempos de hoje, parecer “descolado”, “alternativo” e “revolucionário” também pode ser uma máscara). Talvez haja até uma explicação razoável para não sermos 100% autênticos, para a manutenção da vida social, não sei. Mas com os amigos (aqueles verdadeiros, é deles que falo), temos a coragem de ser exatamente o que nós somos, sem nenhuma expectativa, nenhuma cobrança ou julgamento. Não tenho a necessidade de parecer bonito, inteligente ou bonzinho. Por isso pensei que a amizade é o verdadeiro encontro de almas: pois não importa ali o corpo e a aparência física; nem tanto a mente e os dotes de inteligência e conhecimento: importa apenas a presença do outro, sua companhia.

Por isso pensei que amizade verdadeira tem de ser em grupo. Porque uma coisa é você ter um grande amigo individual, que te ajuda nas horas difíceis, etc. Mas este relacionamento torna-se como o de irmãos, um tipo diferente de amizade. Na amizade dos irmãos surge sempre uma cobrança, uma preocupação excessiva com o outro, uma responsabilidade sob seus atos, etc. A amizade verdadeira tem de ser livre até disso; deve haver preocupação, mas sem pressão ou cobrança. Também refleti que esta amizade também não pode envolver pessoas de sexo diferente: o homem e a mulher são tão diferentes – física e psicologicamente – que nunca vão se sentir totalmente à vontade um com o outro. Sempre vão existir barreiras, limites desconhecidos, decoro. E é bom que seja assim.

Portanto, a amizade verdadeira – a plena comunhão entre almas que não se importam com os objetivos, com as aparências ou com as perspectivas – é vivida num grupo de amigos de pessoas do mesmo sexo, que se dão ao desfrute de se abrir umas às outras, de forma pura, inocente e sincera. Não há segundas intenções, não há disputas, não há divisões. As diferenças estão ali, mas são todas respeitadas. Pode até rolar um sarrinho aqui e acolá, mas tudo acolhido na naturalidade daqueles que sabem que também erram. Ela só deseja para elevar os corações. Por fim, me veio um pensamento melancólico: se já vivi isso tudo um dia (e vivi), hoje já não há mais. Quanto mais vamos entrando no “mundo adulto”, mais as máscaras vão se tornando grudadas ao nosso rosto, até o ponto de encenarmos para nós mesmos. E aí, caindo nessa prisão, fica difícil ter esperança “baixar a guarda” para um grupo de amigos novamente. Será este o meu/nosso destino?

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