Os altares da nossa própria decadência

“Assim fala o Senhor: Eles constituíram reis sem minha vontade; constituíram príncipes sem meu conhecimento; sua prata e seu ouro serviram para fazer ídolos e para sua perdição. Teu bezerro, ó Samaria, foi jogado ao chão; minha cólera inflamou-se contra eles. Até quando ficarão sem purificar-se? Esse bezerro provém de Israel; um artesão fabricou-o, isso não é um deus; será feito em pedaços esse bezerro da Samaria. Semeiam ventos, colherão tempestades; se não há espiga, o grão não dará farinha; e, mesmo que dê, estranhos a comerão. Efraim ergueu muitos altares em expiação do pecado, mas seus altares resultaram-lhe em pecado. Eu lhes deixei, por escrito, grande número de preceitos, mas estes foram considerados coisa que não lhes toca.” – Profecia de Oséias, cap. 8, vers. 4-7.11s

O mundo pós-moderno, amoral e consumista quer pintar o ser humano como livre, espontâneo e crítico, sem prestar atenção na mínima relação entre homem e coisas, como se os objetos fossem “extensões do homem”, parodiando McLuhan. Ao aumentar a importância dos objetos – sejam de consumo ou não -, acaba-se por diminuir a importância absoluta do próprio ser humano, colocado em pé de igualdade diante do que ele próprio fabrica e da natureza. Ou não é espantoso ver o Fantástico dar grande destaque a uma bomba que arrancou dois dentes de uma cadela? Ou a Folha Equilíbrio trazer reportagem de fôlego sobre o teste de produtos cosméticos em coelhos? Presencia-se uma inversão de valores, onde se rebaixa o humano e se eleva o material, objetivando os homens e antropomorfizando as coisas.

Isto não é algo novo, e pode-se dizer que é até uma tendência da própria humanidade. Na antiguidade, seu nome era “idolatria”, denunciada por tantos profetas judeus e não-judeus, como o exemplo de Oséias no trecho acima. A construção de ídolos que seriam alternativas ao “verdadeiro Deus” não representa simplesmente um erro de teologia da parte do povo, mas uma própria perda de sua identidade enquanto povo, e dos valores verdadeiros que o deveria nortear para uma vida justa e em paz. Resume o profeta, no trecho acima “Semeiam ventos, colherão tempestades”, e mais adiante, em outro trecho, diz “Semeai justiça entre vós, e colhereis amor.” Em especial para o povo de Israel, ser fiel ao seu Senhor Javé correspondia em especial à saúde do próprio povo, e não apenas uma relação de subordinação a uma potestade divina.

E hoje a revolução neo-iluminista contra as religiões (em especial o cristianismo católico e o judaísmo) e contra a moral quer dar o golpe de misericórdia num processo que se iniciou nos fins da Idade Média, e que na escola aprendemos como “a volta do antropocentrismo”. Tal revolução quer desfazer qualquer tipo de parâmetro que paute a vida do homem a não ser a vontade do próprio homem. E eis que constituímos reis e príncipes de acordo com nosso desejo, erguemos altares para aquilo que achamos ser divino, construímos bezerros luxuosos com nosso ouro e nossa prata. Tudo parece muito bonito, não fosse o homem se tornando mero instrumento de cenário tão promissor, para no fim se tornar um entrave. A idolatria e a infidelidade do homem é uma traição contra a própria raça. Há quem ache isto bom. Mas Oséias já alertava: sem valorizar o homem e seu valor “divino”, só sobram espigas vazias, que o pouco fruto que der, estranhos comerão.

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