Questionando o futebol

Há quase três anos atrás, um dos meus times preferidos caía pra segunda divisão, o Coritiba. O que ficou gravado em minha memória não foi o resultado em si, mas a reação da torcida: revoltada, destruiu completamente as arquibancadas do estádio, invadiu o campo, tentou agredir os jogadores, atacaram policiais. Ali me saltou aos olhos o poder destrutivo do futebol. Passei um tempo sem me envolver com o esporte, sem acompanhar resultados, sem torcer.

Meses atrás um outro fato inusitado aconteceu: o Corinthians, arqui-rival do meu clube de coração, tornou-se o melhor time da América Latina, num feito inédito, há muito motivo de riso por parte das outras equipes. Mas tal feito não é triste como o primeiro; ao contrário: as pessoas foram às ruas, comemorando, pulando, gritando, bebendo. Mas a reação foi tão forte quanto a primeira, a deles e a minha.

Analisando os meus sentimentos e o das outras pessoas, confirmo definitivamente meu propósito em duvidar sempre do futebol, pelo simples fato de que, no fim, poucas coisas boas advêm de ser um torcedor. Apesar dos esportes serem hoje a menina-dos-olhos até na diplomacia internacional, o que há na verdade é uma quantidade desumana de dinheiro escorrendo pelas mãos daqueles que estão dentro e fora dos campos, quadras, pistas, etc.

Só para ilustrar as ilusões do esporte que me vem à mente, delimito três razões para que ele mereça ao menos ser altamente relegado a um plano inferior de nossa vida. Número 1: o sentimento perante o adversário. Como podemos desejar um mundo mais justo, igualitário e fraterno se ainda competimos sem escrúpulos, ainda que seja em busca de uma bola? Num jogo da seleção polonesa versus a seleção russa de futebol na última Eurocopa ficou claro: o sentimento de períodos de guerra e dos esportes se misturam e se confundem.

Número dois: sentimento diante dos semelhantes, num raro momento onde o efeito da multidão se sobrepõe à massa nos tempos atuais. A multidão irracional e impulsiva pode se reunir por razões boas (comemoração) ou destrutivas (como o caso do Coritiba de 2009), mas ambos evocam sentimentos apaixonados, irracionais, explosivos. Nesses momentos, o limite entre o bem e o mal está muito estreito. A ética e o respeito vão às favas.

Por fim, a medalha de bronze vai para um grande conhecido: a objetivação do sujeito. Quando observamos os atletas, em busca de resultados inesgotáveis, sofrendo uma cobrança incomensurável, nos deparamos com o ser humano que se torna ferramenta de outros. Ou alguém está preocupado com as emoções do atleta? Suas possíveis fragilidades? Seus temores, sua saúde, sua família? Não: ele simplesmente atende aos nossos desejos.

Poderia descrever uma lista um pouco maior de razões que fazem com que o esporte leve as pessoas, sim, um passo atrás no quesito humanidade. Não estou dizendo que não devemos ter momentos de lazer, como nos regimes comunistas de atividades controladas (à la “1984”, de George Orwell), nem tampouco que é só no esporte que esses sentimentos se afloram. Não leiam como um manifesto de denúncia de um “pão-e-circo”, por parte dos “opressores manipuladores”. Tais sentimentos fazem parte da raça humana, mas certamente estão na raiz de mais males que bens.

Alguém como eu, criado em berço futebolístico, eloquente na arte de amar o Verde e odiar com todo o coração o preto-e-branco, preciso repensar tudo isto. Quem consegue se manter são nesse ambiente, boa sorte. Mas devemos tomar cuidado com as práticas aparentemente inofensivas que financiam divisões, contendas e relegam o homem a sentimentos animalescos.

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