Humanas Guerras Santas

Mais um 11 de setembro passou, e outra vez surgem os conflitos entre EUA e Islã, gerando violência e morte por todos os países árabes e muçulmanos. Neste ano, a vítima de destaque foi um embaixador americano morto na anencéfala Líbia. O crime aconteceu diante de protestos de muçulmanos contra um filme (de péssima qualidade, por sinal) feito nos EUA que mostra Maomé (o que já é um crime para eles), de uma maneira satirizada acerca de fatos da sua vida (que não são necessariamente mentiras).

O suficiente para explodir manifestações em onze em cada dez países da região, e também para colunistas e escritores (defensores extremados da “primavera árabe”) culparem a cegueira de “radicais cristãos norte-americanos”. Sim, sei da imensa influência do argumento de que as guerras do mundo são guiadas pela religião, e que ela – em especial o cristianismo – são o principal combustível para o derramamento de sangue no decorrer da história da humanidade.

Em texto publicado hoje na Folha de S. Paulo, o inteligente e renomado colunista Clóvis Rossi fala sobre como a mistura de religião e política geram ódio, mortes e violência. O título do artigo é “Em nome do Pai, do Filho e do Ódio”, uma clara referência à fé cristã (fossem as situações invertidas, talvez tal jogo de palavras já seria suficiente para poloneses e italianos saírem ateando fogo a embaixadas brasileiras em seus países). Esquece Rossi de afirmar – e tal esquecimento me parece sempre proposital – o número de regimes na história que mataram muito: não em nome de Deus, mas em nome “do povo”; regimes muito caros a uma tal parcela da intelectualidade.

Mas meu objetivo não é, com esse texto, levantar acusações contra o islã (apesar do levante de violência estar sendo evocado pela Irmandade Muçulmana, oficialmente); nem ainda jogar nas costas dos regimes comunistas o papel de vilões da história (apesar de terem prendido, torturado e matado mais gente que o Nazismo, a Inquisição e a Al Qaeda somados); nem ainda fazer um desagravo da história cristã, pedindo que meus irmãos de religião se levantem contra certos “acadêmicos” da dialética de um lado só (apesar de tais merecerem um pouco de confrontação).

Venho tentar explicar que, ao contrário do que afirma Rossi na primeira linha do seu artigo, a receita certa para o horror não é “misturar Deus (qualquer Deus) ou seus profetas com política”, mas sim misturar a política com a religião. Será tão difícil perceber que as grandes guerras ditas “religiosas” aconteceram imperiosamente por desejos, digamos, mundanos, de busca de riquezas, influência e poder? É tão complicado perceber que a tal Irmandade Muçulmana é um partido político muito mais do que um poder religioso? É forçoso demais notar que homens católicos como o Cardeal Richelieu são muitíssimo mais homens de armas e púlpitos do que de ambão e sacristia?

Ou talvez tratar a política como ela atualmente é (rasteira, carnal e egoísta) seria fugir – aí sim – de uma utopia que faz ainda com que muitos jornalistas e comentaristas continuem obtendo seu ganha-pão? E ainda aproveitar a atual postura recessiva das comunidades cristãs para desaguar uma vigarice intelectual, demonizar a tal ala (e vilipendiar sua história), criando um maniqueísmo social que os próprios religiosos são acusados de criar?

Acusar as religiões é certamente a saída mais fácil do que sentar no banco das universidades e estudar sociologia. Em vez de pregar emancipação e esclarecimento político da parte de todos (no mundo todo), se coloca a teologia na berlinda, como a causa de todos os males. Que se ouça Max Weber, e sua primorosa obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, onde se mostra os desejos políticos perniciosos que emergem das “religiões”, e não o contrário. E deixe-se de lado um arcaico pensamento marxista, onde o apontamento de culpados, inimigos e vilões já gerou e ainda gerará – este sim – muita exclusão, sofrimento e morte.

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