Acerca das convicções e dos fins, que nem sempre justificam os meios

Estamos assistindo (literalmente) nos últimos meses um espetáculo muito especial: o julgamento da Suprema Corte de nosso país sobre o caso de corrupção mais asqueroso que certamente já se deram em nossas terras. Quiçá no mundo todo! Afinal, o que há de mais repugnante do que um partido que se elege democraticamente (numa República constituída há poucos anos) e tenta, por meio de desvio de dinheiro público e contribuição de particulares, comprar a casa legislativa maior do país, anulando, enfraquecendo e esmigalhando a própria democracia que os elegeu? Nem mesmo em determinadas “repúblicas de fachada” como Venezuela e em países da África isso seria pensado.

E foi isso que o Partido dos Trabalhadores fez, já concluiu o maior tribunal de nosso país, composto por senhores e senhoras indicados pelo próprio partido, mas que colocaram acima de tudo suas carreiras e o zelo pela nossa jovem Constituição (que leva o país a um patamar de segurança jurídica e política nunca visto). Tal partido fez isto, atestam os juízes em votações que são realmente marcos na história política de nosso país. Celso de Melo (o mais velho na corte), Carlos Ayres Britto, Carmen Lúcia e Luiz Fux protagonizaram verdadeiras aulas de respeito à democracia e valor à República, enfocando que “são os corruptos e corruptores os verdadeiros marginais da ordem estabelecida”, como disse o decano.

Tais homens que foram sentenciados como culpados atuaram em décadas passadas contra o regime de exceção instaurado pelos militares e que durou vinte anos. Foram realmente tempos difíceis, onde poucos ousaram erguer a voz. Então surge uma questão na mente de todos nós, proclamada em alta voz pelos advogados de defesa de tais senhores: como podemos imaginar que homens que deram sua cara à tapa (literalmente, de novo) contra um regime de censura e violência, poderiam depois ter feito tal plano de corroer as bases da Nação, vilipendiando a vontade do povo? Como homens, que hoje tem um padrão de vida modesto, teriam tal sede de poder e dinheiro para retirar milhões de milhões de instituições públicas e repassar para quem quer que fosse?

Não é dever do tribunal responder a estas questões, e o jogo retórico dos advogados era muito mais para as TVs do que para os juízes. Juiz é aquele que vê o que aconteceu e dá as penas em relação a isto, e não acerca da biografia do acusado. E assim procedeu a grande maioria dos magistrados, e afirmaram que – sim – houve tal esquema, operacionalizado pelo Partido dos Trabalhadores a mando do Governo Federal. Para responder, então, às perguntas acima, é preciso entender uma coisa: tais homens lutaram no período ditatorial, e ainda lutam por um ideal, mas este ideal não é a democracia. Tais homens enfrentaram todo tipo de prova, e ainda estão dispostos a enfrentar, como afirmam, por um ideal, mas este ideal não é a República. Estes senhores fazem o que for preciso para o bem de alguém, mas este alguém não é a Nação.

Eles possuem uma convicção muito forte. Forte é de tal maneira exatamente por possuir um senso de justiça. Por, no fundo, acreditarem estar fazendo o bem. Nada é mais forte do que a ideia de que estamos agindo em prol de todos; nem mesmo a luta pela liberdade ou pelos entes queridos. Eles acreditam que são os defensores da verdade, da justiça e do bem-comum. Eles realmente creem que a luta que fazem é para melhorar a vida de todos nós. Eles rezam todos os dias a cartilha que defende a luta pelos pobres, pelos oprimidos, marginalizados; e contra os inimigos que oprimem, que marginalizam, que usam do suor do povo para aumentar sua lucratividade.

E para atingir tal fim, para defender tal ideal, eles estariam dispostos a fazer qualquer tipo de ação, a valer-se de qualquer tática. Surrupiar dinheiro público? Ok. Menosprezar os outros poderes republicanos? Fácil. Tornar eleições algo inútil? Tranquilo. Agendar seus interesses nas escolas, universidades e sindicatos? Válido. E foi isto que fizeram, tudo em prol de tal ideal, representado pelo Partido. Para eles, o crescimento do Partido é a segurança do bem estar de todos. As regalias das lideranças são o passo necessário para um dia isto ser distribuído para o povo, para os trabalhadores.

Como eles entraram em tal loucura? Não sei. Só sei que a “república do Partido” é o que há de mais insolente e perigoso que já existiu no mundo. Mina os interesses de todos nós; vende nossas almas a um ente perigosamente ganancioso. E a ganância é o codinome do mal. Seja ganância pelo dinheiro ou pelo poder, em nome de si próprio ou do povo, ela é sempre a mesma. Não interessa se o objetivo é bom: a nossa Suprema Corte está ensinando a estes camaradas que os fins nunca justificam os meios. Mas provavelmente eles não aprenderão. Acreditam ser só mais um passo na luta.

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