Construindo uma verdadeira República

É unanimidade ouvir pelos jornais e programas políticos a ideia de que o Brasil deve se orgulhar por sua tradição democrática, que é recente mas sólida, e que não possui perspectiva de ser atacada ou ferida nos próximos tempos. E isto é mérito de grandes homens que passaram pelo comando de nosso país em décadas passadas, e que organizaram o que era feito de maneira circense.  Principalmente homens do legislativo da época da redemocratização que forjaram a “Constituição Cidadã” que impera sobre nós hoje. Também homens do judiciário, em especial dos tribunais eleitorais, que deram legitimidade a eleições que até muito pouco eram fraudes deslavadas.

Hoje nós vamos votar com a certeza de que nosso voto vai ser computado corretamente, e que faremos parte daquela porcentagem diluída que aparecerá no resultado final da apuração, que sai em pouco mais de uma hora, dependendo do tamanho da cidade e do estado. São juízes honrados que ainda hoje fazem com que nossa democracia seja realmente inabalável e inquestionável, até mesmo por aqueles que tem sede de poder e fariam tudo para ali se perpetuar infinitamente. Mas será que uma democracia tão estável quanto imposta (votar é obrigatório e justificar ausência não é simples) consegue chegar ao seu objetivo maior? Será que a mão pesada do TSE consegue nos transformar numa verdadeira República?

Óbvio que não estou defendendo aqui o fim do sufrágio universal, direito mais do que claro e estabelecido; mas penso que o mundo todo – e não só o Brasil – se questiona se as atuais democracias podem fabricar uma República, ideal ainda mais antigo e abstrato sobre política. Por quantos séculos a palavra “república” não foi utilizada como um mero eufemismo de lideres e grupos que governavam “pelo povo e para o povo”, mas que na verdade assentavam-se em seus tronos, que quando não eram de “direito divino” eram de “direito próprio”? Quantas Repúblicas não foram máquinas de matar, comandadas por cúpulas, famílias e oligarquias, como acontece hoje na Síria?

O que falo de República é ao mesmo tempo num sentido clássico e moderno: clássico no âmbito da coisa pública, de que o Estado é um servidor do povo, é a formação do próprio povo que se organiza para estabelecer suas próprias leis, ao contrário de um Estado automático e violento. Mas também não se trata de “povo” como pensavam os antigos gregos e romanos, que não consideravam mulheres, crianças, estrangeiros e escravos como parte deste. Hoje sabemos que todos e cada um é povo, mesmo aqueles que não tem pleno exercício de suas faculdades ou ainda nem saíram do útero de suas mães.

Portanto chegamos a uma inversão – eu, você, os movimentos de juventude da Europa (15M) e do Oriente Médio (Primavera Árabe) – dos conceitos que outrora eram pensados: lutou-se pelo sufrágio, para que houvesse uma verdadeira demo-cracia, para que a República se sentisse legitimada. Hoje, assistimos uma participação popular massiva (porque assim é imposto), que não se converte em transformações verdadeiras deste próprio povo que vota. O Estado continua sendo “res privatum” (meu latim é péssimo), direito de partidos e oligarquias que não – em hipótese alguma – não representam os interesses coletivos, mas somente os seus próprios.

Na Europa os jovens estão indo às ruas. Nos países árabes também. E no Brasil? No Brasil – como em quase toda a América Latina – temos um processo longuíssimo para tentar esclarecer as coisas. As pessoas ainda assistem julgamentos como a AP 470 (mensalão) como uma novela, um folhetim televisivo. Não se trataria do nosso país, do nosso dinheiro, do nosso futuro; mas de personagens especificamente tramados por um Manoel Carlos, por uma Glória Perez, servindo ao entretenimento e uma “revolta de sofá”. “Sociedade do Espetáculo”? Não, muito mais do que isso: total descolamento da realidade política, desapego total ao que é público, falta de interesse em sair do seu próprio círculo e invadir outros; algo que existe nestas terras muito antes da televisão.

Penso que somente a informação e a educação podem mostrar às pessoas que a vida delas é reflexo de ações e decisões que são tomadas muito além do próprio quarteirão. Mas não pensem que tais elementos transformam automaticamente as mentes; é evidente que grande parte dos intelectualizados e letrados continuam tão passivos (ou mais) do que os analfabetos. Mas outro caminho não há do que despertar aos poucos a consciência de que o que afeta o outro também me afeta; de que Brasília é o quintal de minha casa; que o Palácio do Alvorada é meu encarregado. Isto é República.

Assumir este papel é principalmente função da sociedade civil, já que do Estado e das empresas (altamente envolvidos nas benesses interesseiras) é difícil esperar algo. É função minha, sua. A sociedade democrática brasileira precisa começar a mudar por algum lado: que seja o nosso. Iniciemos ao nosso derredor a construção da verdadeira República Brasileira, que anseia por tornar-se grande desde quando Joaquim Duque Estrada a chamou de “Florão da América”, em 1909.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Política

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: