Os santos e o caráter redentor do sofrimento

“Esses são os sobreviventes da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro.” (Ap 7,14b)

A vida dos santos, para o cristão, é a representação da felicidade, daqueles que encontraram a alegria verdadeira, divina. Mas o que vemos quando lemos suas biografias? Vidas tranquilas e felizes, um “mar de rosas”? Não, ao contrário: sempre houve desafios e problemas na vida dos santos; da perseguição política ao martírio puro e simples. Fica a pergunta: é necessário sofrer para ser santo? Ou melhor, é necessário sofrer para ser feliz?

Talvez seja uma questão um pouco paradoxal para a ideia de felicidade atual, mas a resposta é sim. A fé nos revela: Cristo passou pela Cruz, pelo sofrimento extremo, físico e moral, para poder dizer que “tudo estava consumado” (Jo 19,30). E de acordo com a passagem do início, todos os santos foram lavados pelo mesmo sangue derramado por Jesus, figura do sofrimento passado por Ele.

Mas isto também fica empiricamente claro na vida: o sofrimento é ingrediente essencial e indispensável na nossa existência. Dos pequenos problemas do dia-a-dia às grandes catástrofes escandalizantes. O homem se choca ao percebê-los, e não seria cabível conceber que a reação de Deus fosse diferente, ou que Ele os desejasse ou produzisse; mas eles existem, e nós passaremos por eles. Por que não usá-los de escada para a felicidade, e não como pedra de tropeço?

Mais do que isso: a Cruz de Cristo é a chave de entendimento da vida, a “porta estreita” (Lc 13,24) que nos leva à felicidade. E não se trata de um simples “aprender com os erros”, como se os sofrimentos fossem lições de vida. Também o são, mas vão além: possuem em si um caráter redentor, uma capacidade transformadora do homem, algo que o eleva, o ergue do pó miserável que o constitui. E isto se dá por, no mínimo, três meios: o sofrimento nos proporciona o amor; nos mostra nossos limites; e nos dá a virtude da esperança.

Primeiro, tudo aquilo que é incompleto só pode ser preenchido pela caridade gratuita; nossas mazelas só são remediadas pela misericórdia. Amar o que é perfeito é natural, amar o imperfeito é virtude e traz felicidade. Segundo, ter força e tenacidade é fundamental num mundo instável; é fácil se dizer forte quando tudo vai bem; o sofrimento nos prova como o ouro no crisol (cf. Is 48,10), nos mostra os limites das nossas forças e nos faz ir além. Por fim, é impossível ser feliz quando não se crê mais que as coisas, um dia, podem melhorar; pensar que já se tem tudo é uma das formas mais cruéis de depressão. O homem que tem esperança no sofrimento é aquele que sempre saberá ver a beleza da vida.

Amar além das minhas fronteiras, suportar além das forças, esperar além do que a vista alcança: são esses os aspectos de uma vida verdadeiramente feliz, redimida, elevada, de uma alegria límpida e sincera. Os santos entenderam e viveram. Sim, o sofrimento é a chave da alegria.

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