Archive for the ‘Lazer’ category

E vai começar!

12/06/2014

Mais um mundial de seleções da FIFA, evento que faz parte da vida de cada brasileiro. Quem não lembra das emoções da infância diante de uma TV, torcendo pela seleção?

Agora, de repente, o Mundial ganha uma conotação política por ser realizado em nosso país, com o velho desperdício de dinheiro de sempre. Os brasileiros descobriram a corrupção e o apadrinhamento agora? Resolveram lutar por seus direitos que dantes nem ligavam, a não ser em conversa de botequim?

A partir do momento em que Black Blocks se unem ao PCC pras suas manifestações, colocam o carimbo final de que o que buscam não é democracia, nem justiça, mas somente enfiar goela abaixo uma visão de mundo.

Vamos, brasileiros! Vamos lutar pelo nosso país, conhecendo a política, participando dos partidos, aprendendo a votar e a discutir. Vamos, juventude, nos animar pra participar dos processos decisórios do país, pra criticar a política com argumentos de quem faz alguma coisa, e não de quem dá palpite de fora.

Mas nesse mês, o assunto é futebol, algo muito simplório. Se o Blatter e o Lula fizeram conluio; se o Neymar ganha milhões enquanto a África padece; se com o preço de um estádio dava pra fazer supostos hospitais; deixo isso de lado.

Pra frente Brasil, agora em campo, e pra sempre na busca de uma democracia verdadeira, madura e participativa. O primeiro, depende do jogo dos meninos e da nossa torcida; o segundo, do nosso jogo e da torcida dos meninos.

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Halloween: o que há do outro lado?

04/11/2012

As festas em culto dos mortos são tão antigas quanto a própria humanidade. Responder as questões “de onde viemos” e “para onde vamos” são tão inatas ao homem quanto andar sobre duas patas, cozinhar e amar. A curiosidade acerca do que acontece após a morte e principalmente a fé em que algo existe depois do fim dessa vida são naturais da nossa espécie. Também o medo de enfrentar todos estes assuntos.

Portanto, unindo todos estes fenômenos a uma outra característica humana, o senso de humor, temos como algo corriqueiro festas como o Halloween. Os mexicanos nos ensinam bem: se celebramos a vida, por que não celebrar a morte? Por que não olhar pra ela, encará-la destemidamente? É claro que tal ideia desse povo latino vem das raízes ancestrais maias e seus complexos padrões de vida-e-morte, mas também de sua fé cristã.

O cristão é aquele que, de maneira quase inédita no mundo, não teme a morte. Vale deixar claro: ele também não desvaloriza a vida, mas é exatamente por amá-la e cultivá-la ao extremo que não vê na morte algo ameaçador: àquele que vive bem sua vida só pode haver vida após seu fim. Assim nos ensinou Jesus Cristo, o Ressuscitado. Aquele que desceu ao “Vale dos Mortos” para dar vida àqueles que lá estavam. O Senhor da Vida.

O mundo de hoje, porém, vive o embate (surdo e mudo) entre duas facções: os céticos, porta-bandeiras do ateísmo científico, que acham que debater morte é inútil, uma discussão mistificada, que deveria ser vista de um modo mais funcional pra própria alegria do homem; e do outro lado os “novos cristãos”, protestantes brigadores que desejam reenraizar (existe isto?) a crença em Cristo. Para estes, qualquer louvor à morte é blasfêmia, obra do Maligno, ocultismo, animismo barato.

A questão é que, como cristãos, não devemos temer a morte nem o mal. Encará-los, espreitá-los e enfrentá-los deve ser tarefa básica daqueles que tem fé. Digo isto pois os que não a tem não podem fazer pois acham que mal, morte, bem e vida são valores relativos; os agnósticos, por sua vez, estão no impasse de decidir se crêem em Deus por temor do desconhecido ou se tapam os ouvidos e os olhos para manter-se na ignorância de uma vida material e acessível aos dedos. Preferem ver filmes de terror e pensar em tais coisas folcloricamente.

Não é à toa que a tradição moderna do Halloween surgiu nos Estados Unidos: a postura cética e positiva desse povo é prato cheio para se “folclorizar” até mesmo os monstros e as lendas. Não, não estou falando em comércio e mercado, mas até poderia. A questão é que pensar nos mortos, no outro mundo, nos fantasmas, é natural, como afirmei. A tradição cristã nos dá uma interpretação madura de todas essas coisas que nos impede de cair num “supersticionismo” tacanho, num medo de fantasmas, numa crença em chupa-cabras, sacis e vampiros.

Olhar a morte com os olhos da fé e saber bem valorizar e respeitar a própria vida. Encarar o mal com a vista do bem é saber trilhar uma missão única de valorização do próprio homem. Viver o Halloween é entrar numa luta muito maior do que cogitamos, num enredo muito mais abrangente do que cremos, numa estrada muito mais séria do que visualizamos no nosso dia-a-dia. Crer nos espíritos e nos santos é crer que há um valor maior na vida do que simplesmente um conjunto de sistemas do organismo. Viver de olhos abertos ao transcendente é sair do conto-de-fadas de um mundo planejado, laboral e de aparências. Feliz Halloween!

Questionando o futebol

04/10/2012

Há quase três anos atrás, um dos meus times preferidos caía pra segunda divisão, o Coritiba. O que ficou gravado em minha memória não foi o resultado em si, mas a reação da torcida: revoltada, destruiu completamente as arquibancadas do estádio, invadiu o campo, tentou agredir os jogadores, atacaram policiais. Ali me saltou aos olhos o poder destrutivo do futebol. Passei um tempo sem me envolver com o esporte, sem acompanhar resultados, sem torcer.

Meses atrás um outro fato inusitado aconteceu: o Corinthians, arqui-rival do meu clube de coração, tornou-se o melhor time da América Latina, num feito inédito, há muito motivo de riso por parte das outras equipes. Mas tal feito não é triste como o primeiro; ao contrário: as pessoas foram às ruas, comemorando, pulando, gritando, bebendo. Mas a reação foi tão forte quanto a primeira, a deles e a minha.

Analisando os meus sentimentos e o das outras pessoas, confirmo definitivamente meu propósito em duvidar sempre do futebol, pelo simples fato de que, no fim, poucas coisas boas advêm de ser um torcedor. Apesar dos esportes serem hoje a menina-dos-olhos até na diplomacia internacional, o que há na verdade é uma quantidade desumana de dinheiro escorrendo pelas mãos daqueles que estão dentro e fora dos campos, quadras, pistas, etc.

Só para ilustrar as ilusões do esporte que me vem à mente, delimito três razões para que ele mereça ao menos ser altamente relegado a um plano inferior de nossa vida. Número 1: o sentimento perante o adversário. Como podemos desejar um mundo mais justo, igualitário e fraterno se ainda competimos sem escrúpulos, ainda que seja em busca de uma bola? Num jogo da seleção polonesa versus a seleção russa de futebol na última Eurocopa ficou claro: o sentimento de períodos de guerra e dos esportes se misturam e se confundem.

Número dois: sentimento diante dos semelhantes, num raro momento onde o efeito da multidão se sobrepõe à massa nos tempos atuais. A multidão irracional e impulsiva pode se reunir por razões boas (comemoração) ou destrutivas (como o caso do Coritiba de 2009), mas ambos evocam sentimentos apaixonados, irracionais, explosivos. Nesses momentos, o limite entre o bem e o mal está muito estreito. A ética e o respeito vão às favas.

Por fim, a medalha de bronze vai para um grande conhecido: a objetivação do sujeito. Quando observamos os atletas, em busca de resultados inesgotáveis, sofrendo uma cobrança incomensurável, nos deparamos com o ser humano que se torna ferramenta de outros. Ou alguém está preocupado com as emoções do atleta? Suas possíveis fragilidades? Seus temores, sua saúde, sua família? Não: ele simplesmente atende aos nossos desejos.

Poderia descrever uma lista um pouco maior de razões que fazem com que o esporte leve as pessoas, sim, um passo atrás no quesito humanidade. Não estou dizendo que não devemos ter momentos de lazer, como nos regimes comunistas de atividades controladas (à la “1984”, de George Orwell), nem tampouco que é só no esporte que esses sentimentos se afloram. Não leiam como um manifesto de denúncia de um “pão-e-circo”, por parte dos “opressores manipuladores”. Tais sentimentos fazem parte da raça humana, mas certamente estão na raiz de mais males que bens.

Alguém como eu, criado em berço futebolístico, eloquente na arte de amar o Verde e odiar com todo o coração o preto-e-branco, preciso repensar tudo isto. Quem consegue se manter são nesse ambiente, boa sorte. Mas devemos tomar cuidado com as práticas aparentemente inofensivas que financiam divisões, contendas e relegam o homem a sentimentos animalescos.

Os últimos doze

13/09/2012

Doze foi o número das tribos de Israel. Doze também é o número de apóstolos de Cristo. Dois mil e doze é o ano que estamos vivendo. Utilizo-me deste número cujo significado é a “completude” para iniciar a reta final deste querido blog. Desde 2009 venho construindo-o, propondo debates acerca de política, religião, arte e até futebol (pois acho que são coisas que devem ser discutidas, sim!) Em alguns momentos fui mais contundente, outros mais superficial; tive sacadas divertidas, outras textos completamente monótonos; vim num amadurecimento, de ideias, letras e posicionamentos. O que sou hoje não é o que fui em 2009, nem o que serei em 2015.

Mas acredito que vale o registro, valem as divagações e as “cerebrações” mais variadas. Depois de um tempo recluso (pra fugir da milícia anti-liberal e anti-religiosa), o blog voltou há pouco a ser indexado pelo Google, tendo acessos constantes para textos que nunca pensei em serem referência, mas coroam assuntos que valeram a pena ser debatidos. Cito dois: a discussão sobre o SPP (Se parar, parou) – técnica de eutanásia – e o que fala sobre a vida religiosa no século XXI. Existem também meus favoritos, como o da Semana da Família de 2009 e tantos outros perdidos nos arquivos dos quase 500 textos.

Quinhentos será o número final, muito mais do que suficiente! É preciso ir trilhar outros caminhos, pensar em outras coisas, viver outras experiências. A vida não para nem pode parar. Prometo, porém, me esforçar para deixar os últimos 12 textos – agora 11 – com profundidade e comprometimento. Como toda obra, o blog ficará inacabado, figurando as grandes angústias que ainda brotam dentro de mim. Temos diante dos olhos um mundo ainda desigual, onde liberdade é artigo raro, e a compreensão mútua é “piada de salão”, como diria Delúbio Soares.

Mas saio feliz em ter colaborado para este novo ambiente chamado internet. Quando comecei, era totalmente crítico àqueles que viam nela a salvação da humanidade. Ainda acho que existem muitas posturas cegas, tanto do lado do otimismo quanto do pessimismo; mas agora como um quase bacharel em comunicação (e este blog ajudou a me formar), vejo que tal ambiente deve reter nossa atenção, nosso tempo e nossos esforços.

Creio que devo agradecer também, já que este certamente é o último “metatexto” deste blog. Agradeço a todos aqueles que um dia vieram aqui e deram uma bisbilhotada, e então tiveram vontade de xingar ou elogiar, tanto faz. Agradeço ao suporte incansável de meus pais e meu orientador, Pe. Sandro Rogério. Obrigado também àqueles que colaboraram e colaboram na minha formação, direta ou indiretamente, na faculdade, nos livros, nos jornais. Agradeço também a todos os especialistas e doutores que foram alvos de minhas críticas aqui nos tempos áureos. Por fim, obrigado a Deus, por me dar a oportunidade de sempre falar em Seu nome, mesmo que de um jeito aparentemente debochado.

O recado está dado. Este Vinícius ficará aqui, armazenado em algum lugar da nuvem do ciberespaço, por quanto tempo este servidor de blogs tolerar. Espero ainda contar com sua visita. Fuce no arquivo, procure por palavras-chave! Divirta-se, xingue. Mas saiba que tudo foi, bom ou ruim, com sinceridade. Este sou eu, junto com vocês, Deus e o mundo. “Cerebrando” sempre e em todo lugar. Obrigado!

O que é a verdadeira amizade

17/06/2012

Estava dias atrás passando o tempo tocando velhas canções no violão, que me levaram por uma jornada sinestésica a tempos já antigos: seis, sete anos atrás. Pensei então que momentos marcantes, bons ou ruins, deixam gravados na memória seus sons, seus cheiros, seus gostos. É a loucura da mente humana. Mas este momento, em especial, que recordei com a tal música, era bom. Era um momento de amizade, amizade verdeira, sincera, plena. E pensando nisso – e recordando como era bom tal sentimento – comecei uma daquelas viagens pensando sobre estes aspectos tão misteriosos da vida. O tema então foi a tal “amizade”. Há algo de muitíssimo especial neste estado de espírito; mas como tudo que envolve relacionamentos humanos, existem também os enganos e ilusões. Expresso o que me passou pela cabeça naquele momento.

Primeiramente, é importante definir o que é amizade. Quem são verdadeiramente nossos “amigos”, no sentido concreto e real do termo, que se tornou tão banalizado num mundo de conexões rápidas, individuais e efêmeras entre as pessoas, muitas vezes online. Lembrando dos tempos de colégio, pensei que amigos são aqueles que conseguem se relacionar um com o outro sem máscaras, sem barreiras, ou – como se diria no boxe – com a guarda abaixada. Pois como somos obrigados na nossa sociedade, a viver mascarados, mascarando e atuando o tempo todo! Como temos de montar personagens: o prestativo no trabalho, o responsável na escola/faculdade, o atencioso no casamento, o obediente na família, o piedoso na igreja, o consciente na política, etc. Estamos sempre posando, e o verdadeiro “eu” fica perdido em algum lugar desta bagunça.

Não estou dizendo que nosso verdadeiro ser não pode ser atencioso, prestativo, consciente: mas é óbvio que na realidade não somos tão bons e bacanas quanto buscamos parecer aos olhos dos outros. (Ou até mesmo, nos tempos de hoje, parecer “descolado”, “alternativo” e “revolucionário” também pode ser uma máscara). Talvez haja até uma explicação razoável para não sermos 100% autênticos, para a manutenção da vida social, não sei. Mas com os amigos (aqueles verdadeiros, é deles que falo), temos a coragem de ser exatamente o que nós somos, sem nenhuma expectativa, nenhuma cobrança ou julgamento. Não tenho a necessidade de parecer bonito, inteligente ou bonzinho. Por isso pensei que a amizade é o verdadeiro encontro de almas: pois não importa ali o corpo e a aparência física; nem tanto a mente e os dotes de inteligência e conhecimento: importa apenas a presença do outro, sua companhia.

Por isso pensei que amizade verdadeira tem de ser em grupo. Porque uma coisa é você ter um grande amigo individual, que te ajuda nas horas difíceis, etc. Mas este relacionamento torna-se como o de irmãos, um tipo diferente de amizade. Na amizade dos irmãos surge sempre uma cobrança, uma preocupação excessiva com o outro, uma responsabilidade sob seus atos, etc. A amizade verdadeira tem de ser livre até disso; deve haver preocupação, mas sem pressão ou cobrança. Também refleti que esta amizade também não pode envolver pessoas de sexo diferente: o homem e a mulher são tão diferentes – física e psicologicamente – que nunca vão se sentir totalmente à vontade um com o outro. Sempre vão existir barreiras, limites desconhecidos, decoro. E é bom que seja assim.

Portanto, a amizade verdadeira – a plena comunhão entre almas que não se importam com os objetivos, com as aparências ou com as perspectivas – é vivida num grupo de amigos de pessoas do mesmo sexo, que se dão ao desfrute de se abrir umas às outras, de forma pura, inocente e sincera. Não há segundas intenções, não há disputas, não há divisões. As diferenças estão ali, mas são todas respeitadas. Pode até rolar um sarrinho aqui e acolá, mas tudo acolhido na naturalidade daqueles que sabem que também erram. Ela só deseja para elevar os corações. Por fim, me veio um pensamento melancólico: se já vivi isso tudo um dia (e vivi), hoje já não há mais. Quanto mais vamos entrando no “mundo adulto”, mais as máscaras vão se tornando grudadas ao nosso rosto, até o ponto de encenarmos para nós mesmos. E aí, caindo nessa prisão, fica difícil ter esperança “baixar a guarda” para um grupo de amigos novamente. Será este o meu/nosso destino?

Consumidores, louvai o Senhor!

16/05/2012

Aleluia! Louvai o Senhor nos céus, louvai-o nas alturas. Louvai-o, vós todos, seus anjos, louvai-o, vós todos, seus exércitos. Louvai-o, sol e lua, louvai-o, vós todas, estrelas brilhantes. Louvai-o, céus dos céus, e vós, águas de cima dos céus. Louvem o nome do Senhor, porque ele mandou e foram criados. Firmou-os para sempre, eternamente, deu-lhes uma lei que jamais passará. Louvai o Senhor na terra, cetáceos e todos os abismos, raio e granizo, neve e neblina, vento tempestuoso que cumpre suas ordens; montes e todas as colinas, árvores frutíferas e todos os cedros, feras e animais domésticos, répteis e aves que voam. Os reis da terra e todos os povos, governantes e chefes todos da terra, rapazes e moças, os velhos junto com as crianças, louvem o nome do Senhor porque só seu nome é sublime. – Salmo 148, 1-13a

Está na moda no mundo empresarial falar de responsabilidade ambiental e social. Empresas correm para fazer seus takes “institucionais”, relatando como estão ajudando a mudar o mundo pra melhor. Como um quase-relações-públicas, penso que só existem duas maneiras de se fazer (ou ter) responsabilidade social e ambiental numa empresa: ou de fachada, somente pra fazer bonito nas propagandas e nas embalagens; ou assumindo verdadeiramente o caráter único do nosso planeta e tudo o que nele contém. Por que estou falando de negócios num post de religião? Digo: muitos acusam o capitalismo de ter sido um destruidor do planeta onde vivemos – o que em base é uma realidade – e buscam demonstrar como hoje a “ética” está por cima. Mas o que é ética? O que é responsabilidade social? O que é meio-ambiente?

Estas coisas tão “cool” atualmente não tem nada de novas ou modernas: o fato de pensar na humanidade como algo a se compartilhar ou a se utilizar em seu próprio interesse sempre (repito: sempre) foi questão de posicionamento pessoal. O trecho do salmo de hoje que posto acima mostra como já numa ética muito remota se tinha total consciência do valor da natureza e de todos os homens, compondo um único sistema. Não faltaram teóricos na Grécia Antiga a defender o mesmo. Mas também sempre houve a ganância, a escravidão, a devastação, a destruição, de pessoas, espécies e até sociedades inteiras. Ética não é algo novo, nem algo que possa ser relativizado: ela está pautada sobre uma verdade, que deve ser levada à sério e encarada pelas pessoas, o que nem sempre foi feito.

Qual é esta verdade? Aquela que é expressada no trecho colado acima: todos são convidados a louvar o Senhor por sua bondade. Desde os seres invisíveis, passando pelos grandes astros do céu, fenômenos inanimados, animais selvagens, domésticos, até chegar na humanidade: todos fazem parte de um todo só, que age para um mesmo fim, que une-se em busca de uma mesma realidade. Vale frisar: é na humanidade que tudo culmina; é ela quem tem a prerrogativa de se utilizar de todos os elementos (da energia solar até o detergente de pia) para seu uso, sua vida, seu progresso. Afirmar a superioridade da raça humana é considerado indelicado nos tempos atuais, mas assim o é. Ou o mundo teria sentido sem a presença humana? Haveria uma sociedade de leões?

O homem é que comanda tudo isto, e, portanto, faz o usufruto que lhe é devido. Porém, ele só consegue gerar equilíbrio e harmonia quando trata tudo em sua igualdade de criaturas diante do Criador. Sem este parâmetro, ou caímos no consumismo desenfreado (poderio do homem sobre as coisas) ou num panteísmo pós-moderno (poderio das coisas sobre o homem). Dessa forma, fica claro que responsabilidade ambiental e social não estão distantes, nem são escolhas inteligentes: são pressupostos para a vida na face do planeta. Assim é numa empresa, assim é nas nossas casas. De que vale fechar a torneira ao escovar os dentes mas continuar a menosprezar a esposa, os pais e os filhos? Consciência global: é coisa da Antiga, da Nova e da Eterna Aliança de Deus com a humanidade.

Internet: pitbull do pós-modernismo?

24/04/2012

Falar sobre a internet e suas possibilidades é meu assunto do ano. E fiquei feliz quando vi que a coluna de João Pereira Coutinho de hoje fala disso. Do jeito típico do autor português: provocante, irônico, rabugento. Às vezes até mesmo redundante. Tento crer que depois de um ano estudando isto estarei mais maduro na questão, mas hoje vejo que ela não é tão radical quanto Coutinho apresenta no início de seu texto, mas com as delimitações que ele aponta no fim: o dia-a-dia deve ser valorizado sim, e qualquer tentação egocêntrica e narcisística só serve pra destruir relações. É assim fora da internet, por que não seria nela? O colunista afirma acertadamente: estar conectado no Facebook não significa que nosso isolamento decresceu. Mas também não que ele cresceu. Isto é questão de postura humana e menos do meio em que ela se dá. Tomemos cuidado com a internet, especialmente pais com seus filhos. Mas não a tratemos como o símbolo da derrocada humana pós-moderna.

João Pereira Coutinho

Redes e aquários

Digo que só consulto a internet duas vezes por dia -ao acordar e ao deitar. Questão de higiene -mental

Há um novo crime na praça. E eu sou culpado aos olhos de amigos, colegas, até leitores. Não respondo a e-mails de imediato. Só passados alguns minutos -ou algumas horas.
Defendo-me como posso. Digo, a sério, que só consulto a internet duas vezes por dia -ao acordar e ao deitar. Questão de higiene -mental. Curiosamente, quase sempre estou a escovar os dentes.
Ninguém acredita. E, quem acredita, diz que isso não é desculpa: existem uns celulares que recebem e-mails em tempo real e permitem respostas em tempo real.
Agradeço a informação, mas não era preciso: eu próprio já recebi e-mails do gênero, que terminam com a declaração solene “esta mensagem foi enviada por iPhone”.
Nunca sei que responder: mostrar-me abismado com a proeza e aplaudir a grande honra que o sujeito me concedeu?
Às vezes, há situações bizarras. Alguém envia um e-mail. Minutos depois, envia outro, só para perguntar se eu recebi o primeiro. Duas ou três horas depois, vem mais um -dessa vez, uma repetição do inicial, para o caso de eu não ter lido.
Essa comunicação unilateral termina com um quarto ou um quinto, em que sou acusado das maiores baixezas (indiferença, preguiça, hostilidade etc.).
Em poucas horas, alguém iniciou e terminou uma comunicação comigo sem que eu jamais estivesse presente para dizer “presente!”. Que se passa com o mundo?
Os especialistas no assunto, psicólogos e sociólogos que pesquisam os paradoxos da internet, afirmam que estamos cada vez mais ligados e exigimos respostas cada vez mais rápidas uns dos outros. Certo, especialistas do óbvio, certíssimo.
A questão, porém, deve ser outra: que tipo de gente a internet está a produzir no século 21?
Foi precisamente essa pergunta que o escritor Stephen Marche formulou em artigo para a revista “The Atlantic” (“Is Facebook Making Us Lonely?”). As conclusões não são otimistas: estamos todos ligados, mas essa sensação de contato permanente não significa que o nosso isolamento (e a nossa solidão) decresceu.
O Facebook é, inevitavelmente, um caso clássico: que significa esse imenso continente virtual onde “existem” 845 milhões de pessoas, onde se publicam bilhões de comentários diários e onde se postam 750 milhões de fotos por semana?
Stephen Marche não faz parte dos luditas modernos para quem o Facebook é a “bête noir” da civilização ocidental. A resposta dele, depois de ler os últimos estudos sobre o fenômeno, é de uma sensatez que arrepia: a internet é um meio, não um fim. O que somos como seres sociais depende da forma como usamos as redes sociais.
Que o mesmo é dizer: quem usa o Facebook para substituir a realidade não aumenta o seu “capital social”. Pelo contrário, pode mesmo sentir o isolamento típico de um peixe que contempla o mundo através do vidro do aquário. Paralisante. Angustiante.
No artigo, o autor cita um neurocientista da Universidade de Chicago, John Cacioppo, que oferece uma metáfora ainda melhor: podemos usar o carro para ir ao encontro de amigos; ou podemos dirigir sozinhos pelas ruas da cidade. O mesmo carro, duas atitudes distintas.
A internet, e as redes sociais que ela comporta, é apenas um instrumento para, não um substituto de. O desafio, leitor, não está em quebrar o aquário. Está em sair dele de vez em quando.
Sair. Desligar. Não estar disponível. Ou, como escreve Stephen Marche, “termos a oportunidade de nos esquecermos de nós próprios”.
Eis, no fundo, a observação mais luminosa do ensaio: a nossa constante disponibilidade para os outros é apenas uma manifestação mais profunda do nosso insuportável narcisismo. E o narcisismo, como sempre, nasce de uma insegurança que procuramos preencher com o culto doentio do ego.
Pensamos que somos tão imprescindíveis que temos de estar presentes 24 horas por dia na vida alheia. E vice-versa: pensamos que somos tão importantes que os outros têm de estar permanentemente disponíveis para nós.
Lamento, amigos. Lamento, colegas. Lamento, leitor. Os meus silêncios não têm nada de pessoal. Nem eu nem você somos assim tão importantes.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/38861-redes-e-aquarios.shtml