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Os santos e o caráter redentor do sofrimento

14/11/2014

“Esses são os sobreviventes da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro.” (Ap 7,14b)

A vida dos santos, para o cristão, é a representação da felicidade, daqueles que encontraram a alegria verdadeira, divina. Mas o que vemos quando lemos suas biografias? Vidas tranquilas e felizes, um “mar de rosas”? Não, ao contrário: sempre houve desafios e problemas na vida dos santos; da perseguição política ao martírio puro e simples. Fica a pergunta: é necessário sofrer para ser santo? Ou melhor, é necessário sofrer para ser feliz?

Talvez seja uma questão um pouco paradoxal para a ideia de felicidade atual, mas a resposta é sim. A fé nos revela: Cristo passou pela Cruz, pelo sofrimento extremo, físico e moral, para poder dizer que “tudo estava consumado” (Jo 19,30). E de acordo com a passagem do início, todos os santos foram lavados pelo mesmo sangue derramado por Jesus, figura do sofrimento passado por Ele.

Mas isto também fica empiricamente claro na vida: o sofrimento é ingrediente essencial e indispensável na nossa existência. Dos pequenos problemas do dia-a-dia às grandes catástrofes escandalizantes. O homem se choca ao percebê-los, e não seria cabível conceber que a reação de Deus fosse diferente, ou que Ele os desejasse ou produzisse; mas eles existem, e nós passaremos por eles. Por que não usá-los de escada para a felicidade, e não como pedra de tropeço?

Mais do que isso: a Cruz de Cristo é a chave de entendimento da vida, a “porta estreita” (Lc 13,24) que nos leva à felicidade. E não se trata de um simples “aprender com os erros”, como se os sofrimentos fossem lições de vida. Também o são, mas vão além: possuem em si um caráter redentor, uma capacidade transformadora do homem, algo que o eleva, o ergue do pó miserável que o constitui. E isto se dá por, no mínimo, três meios: o sofrimento nos proporciona o amor; nos mostra nossos limites; e nos dá a virtude da esperança.

Primeiro, tudo aquilo que é incompleto só pode ser preenchido pela caridade gratuita; nossas mazelas só são remediadas pela misericórdia. Amar o que é perfeito é natural, amar o imperfeito é virtude e traz felicidade. Segundo, ter força e tenacidade é fundamental num mundo instável; é fácil se dizer forte quando tudo vai bem; o sofrimento nos prova como o ouro no crisol (cf. Is 48,10), nos mostra os limites das nossas forças e nos faz ir além. Por fim, é impossível ser feliz quando não se crê mais que as coisas, um dia, podem melhorar; pensar que já se tem tudo é uma das formas mais cruéis de depressão. O homem que tem esperança no sofrimento é aquele que sempre saberá ver a beleza da vida.

Amar além das minhas fronteiras, suportar além das forças, esperar além do que a vista alcança: são esses os aspectos de uma vida verdadeiramente feliz, redimida, elevada, de uma alegria límpida e sincera. Os santos entenderam e viveram. Sim, o sofrimento é a chave da alegria.

Sexo Nowadays

29/12/2013

A sexualidade é um assunto delicado. Não falar de sexo é um atalho para a ignorância e para cometer grandes bobagens que a vida cobra o preço. Falar de sexo, porém, do jeito que está sendo feito ultimamente, também não sei se traz muitos benefícios. Talvez seja eu muito tradicionalista e antigo, mas três fatos me assustaram nos últimos dias.

Estava eu fazendo algo que só as férias me permitem: ver TV. Por acaso, era um capítulo de uma novela. Mais acaso ainda de ser a atual das 21h, Amor à Vida. Desatualizado estava eu, sem saber que o “sexo casual” havia se tornado algo tão corriqueiro no drama. No capítulo que assisti, foram nada menos que quatro ou cinco cenas seguidas. Desde Suzana Vieira e sua velhice indecorosa, até Bárbara Paz e sua cara de ontem, até Tatá Verneck e sua sensualidade forçada (saudades dela na MTV).

Dias depois, insisti em ser telespectador. Fui ver futebol de areia, no Esporte Espetacular, lá pelas 10h da manhã. Me deparo (e o choque foi o mesmo), com a propaganda de camisinhas Olla, cuja personagem principal é a MC Anitta (novo ideal de mulher?). A propaganda traz várias mulheres sendo jogadas na cama como troféus depois de uma noite de azaração. O slogan: “Viva a pegação”.

Por fim, vi na internet a notícia de que no Rio um grupo de mulheres havia feito um “toplessaço” protestando contra a “criminalização” do corpo (o que exatamente seria isso eu não sei).

Eu sou jovem, cresci nesse mundo da informação, não me considero ingênuo; mas gostaria sinceramente que alguém me explicasse de onde isso tudo vem e, principalmente, para onde isso pode nos levar. Mas prevejo que as mulheres e as famílias são as principais vítimas.

Halloween: o que há do outro lado?

04/11/2012

As festas em culto dos mortos são tão antigas quanto a própria humanidade. Responder as questões “de onde viemos” e “para onde vamos” são tão inatas ao homem quanto andar sobre duas patas, cozinhar e amar. A curiosidade acerca do que acontece após a morte e principalmente a fé em que algo existe depois do fim dessa vida são naturais da nossa espécie. Também o medo de enfrentar todos estes assuntos.

Portanto, unindo todos estes fenômenos a uma outra característica humana, o senso de humor, temos como algo corriqueiro festas como o Halloween. Os mexicanos nos ensinam bem: se celebramos a vida, por que não celebrar a morte? Por que não olhar pra ela, encará-la destemidamente? É claro que tal ideia desse povo latino vem das raízes ancestrais maias e seus complexos padrões de vida-e-morte, mas também de sua fé cristã.

O cristão é aquele que, de maneira quase inédita no mundo, não teme a morte. Vale deixar claro: ele também não desvaloriza a vida, mas é exatamente por amá-la e cultivá-la ao extremo que não vê na morte algo ameaçador: àquele que vive bem sua vida só pode haver vida após seu fim. Assim nos ensinou Jesus Cristo, o Ressuscitado. Aquele que desceu ao “Vale dos Mortos” para dar vida àqueles que lá estavam. O Senhor da Vida.

O mundo de hoje, porém, vive o embate (surdo e mudo) entre duas facções: os céticos, porta-bandeiras do ateísmo científico, que acham que debater morte é inútil, uma discussão mistificada, que deveria ser vista de um modo mais funcional pra própria alegria do homem; e do outro lado os “novos cristãos”, protestantes brigadores que desejam reenraizar (existe isto?) a crença em Cristo. Para estes, qualquer louvor à morte é blasfêmia, obra do Maligno, ocultismo, animismo barato.

A questão é que, como cristãos, não devemos temer a morte nem o mal. Encará-los, espreitá-los e enfrentá-los deve ser tarefa básica daqueles que tem fé. Digo isto pois os que não a tem não podem fazer pois acham que mal, morte, bem e vida são valores relativos; os agnósticos, por sua vez, estão no impasse de decidir se crêem em Deus por temor do desconhecido ou se tapam os ouvidos e os olhos para manter-se na ignorância de uma vida material e acessível aos dedos. Preferem ver filmes de terror e pensar em tais coisas folcloricamente.

Não é à toa que a tradição moderna do Halloween surgiu nos Estados Unidos: a postura cética e positiva desse povo é prato cheio para se “folclorizar” até mesmo os monstros e as lendas. Não, não estou falando em comércio e mercado, mas até poderia. A questão é que pensar nos mortos, no outro mundo, nos fantasmas, é natural, como afirmei. A tradição cristã nos dá uma interpretação madura de todas essas coisas que nos impede de cair num “supersticionismo” tacanho, num medo de fantasmas, numa crença em chupa-cabras, sacis e vampiros.

Olhar a morte com os olhos da fé e saber bem valorizar e respeitar a própria vida. Encarar o mal com a vista do bem é saber trilhar uma missão única de valorização do próprio homem. Viver o Halloween é entrar numa luta muito maior do que cogitamos, num enredo muito mais abrangente do que cremos, numa estrada muito mais séria do que visualizamos no nosso dia-a-dia. Crer nos espíritos e nos santos é crer que há um valor maior na vida do que simplesmente um conjunto de sistemas do organismo. Viver de olhos abertos ao transcendente é sair do conto-de-fadas de um mundo planejado, laboral e de aparências. Feliz Halloween!

Questionando o futebol

04/10/2012

Há quase três anos atrás, um dos meus times preferidos caía pra segunda divisão, o Coritiba. O que ficou gravado em minha memória não foi o resultado em si, mas a reação da torcida: revoltada, destruiu completamente as arquibancadas do estádio, invadiu o campo, tentou agredir os jogadores, atacaram policiais. Ali me saltou aos olhos o poder destrutivo do futebol. Passei um tempo sem me envolver com o esporte, sem acompanhar resultados, sem torcer.

Meses atrás um outro fato inusitado aconteceu: o Corinthians, arqui-rival do meu clube de coração, tornou-se o melhor time da América Latina, num feito inédito, há muito motivo de riso por parte das outras equipes. Mas tal feito não é triste como o primeiro; ao contrário: as pessoas foram às ruas, comemorando, pulando, gritando, bebendo. Mas a reação foi tão forte quanto a primeira, a deles e a minha.

Analisando os meus sentimentos e o das outras pessoas, confirmo definitivamente meu propósito em duvidar sempre do futebol, pelo simples fato de que, no fim, poucas coisas boas advêm de ser um torcedor. Apesar dos esportes serem hoje a menina-dos-olhos até na diplomacia internacional, o que há na verdade é uma quantidade desumana de dinheiro escorrendo pelas mãos daqueles que estão dentro e fora dos campos, quadras, pistas, etc.

Só para ilustrar as ilusões do esporte que me vem à mente, delimito três razões para que ele mereça ao menos ser altamente relegado a um plano inferior de nossa vida. Número 1: o sentimento perante o adversário. Como podemos desejar um mundo mais justo, igualitário e fraterno se ainda competimos sem escrúpulos, ainda que seja em busca de uma bola? Num jogo da seleção polonesa versus a seleção russa de futebol na última Eurocopa ficou claro: o sentimento de períodos de guerra e dos esportes se misturam e se confundem.

Número dois: sentimento diante dos semelhantes, num raro momento onde o efeito da multidão se sobrepõe à massa nos tempos atuais. A multidão irracional e impulsiva pode se reunir por razões boas (comemoração) ou destrutivas (como o caso do Coritiba de 2009), mas ambos evocam sentimentos apaixonados, irracionais, explosivos. Nesses momentos, o limite entre o bem e o mal está muito estreito. A ética e o respeito vão às favas.

Por fim, a medalha de bronze vai para um grande conhecido: a objetivação do sujeito. Quando observamos os atletas, em busca de resultados inesgotáveis, sofrendo uma cobrança incomensurável, nos deparamos com o ser humano que se torna ferramenta de outros. Ou alguém está preocupado com as emoções do atleta? Suas possíveis fragilidades? Seus temores, sua saúde, sua família? Não: ele simplesmente atende aos nossos desejos.

Poderia descrever uma lista um pouco maior de razões que fazem com que o esporte leve as pessoas, sim, um passo atrás no quesito humanidade. Não estou dizendo que não devemos ter momentos de lazer, como nos regimes comunistas de atividades controladas (à la “1984”, de George Orwell), nem tampouco que é só no esporte que esses sentimentos se afloram. Não leiam como um manifesto de denúncia de um “pão-e-circo”, por parte dos “opressores manipuladores”. Tais sentimentos fazem parte da raça humana, mas certamente estão na raiz de mais males que bens.

Alguém como eu, criado em berço futebolístico, eloquente na arte de amar o Verde e odiar com todo o coração o preto-e-branco, preciso repensar tudo isto. Quem consegue se manter são nesse ambiente, boa sorte. Mas devemos tomar cuidado com as práticas aparentemente inofensivas que financiam divisões, contendas e relegam o homem a sentimentos animalescos.

Os últimos doze

13/09/2012

Doze foi o número das tribos de Israel. Doze também é o número de apóstolos de Cristo. Dois mil e doze é o ano que estamos vivendo. Utilizo-me deste número cujo significado é a “completude” para iniciar a reta final deste querido blog. Desde 2009 venho construindo-o, propondo debates acerca de política, religião, arte e até futebol (pois acho que são coisas que devem ser discutidas, sim!) Em alguns momentos fui mais contundente, outros mais superficial; tive sacadas divertidas, outras textos completamente monótonos; vim num amadurecimento, de ideias, letras e posicionamentos. O que sou hoje não é o que fui em 2009, nem o que serei em 2015.

Mas acredito que vale o registro, valem as divagações e as “cerebrações” mais variadas. Depois de um tempo recluso (pra fugir da milícia anti-liberal e anti-religiosa), o blog voltou há pouco a ser indexado pelo Google, tendo acessos constantes para textos que nunca pensei em serem referência, mas coroam assuntos que valeram a pena ser debatidos. Cito dois: a discussão sobre o SPP (Se parar, parou) – técnica de eutanásia – e o que fala sobre a vida religiosa no século XXI. Existem também meus favoritos, como o da Semana da Família de 2009 e tantos outros perdidos nos arquivos dos quase 500 textos.

Quinhentos será o número final, muito mais do que suficiente! É preciso ir trilhar outros caminhos, pensar em outras coisas, viver outras experiências. A vida não para nem pode parar. Prometo, porém, me esforçar para deixar os últimos 12 textos – agora 11 – com profundidade e comprometimento. Como toda obra, o blog ficará inacabado, figurando as grandes angústias que ainda brotam dentro de mim. Temos diante dos olhos um mundo ainda desigual, onde liberdade é artigo raro, e a compreensão mútua é “piada de salão”, como diria Delúbio Soares.

Mas saio feliz em ter colaborado para este novo ambiente chamado internet. Quando comecei, era totalmente crítico àqueles que viam nela a salvação da humanidade. Ainda acho que existem muitas posturas cegas, tanto do lado do otimismo quanto do pessimismo; mas agora como um quase bacharel em comunicação (e este blog ajudou a me formar), vejo que tal ambiente deve reter nossa atenção, nosso tempo e nossos esforços.

Creio que devo agradecer também, já que este certamente é o último “metatexto” deste blog. Agradeço a todos aqueles que um dia vieram aqui e deram uma bisbilhotada, e então tiveram vontade de xingar ou elogiar, tanto faz. Agradeço ao suporte incansável de meus pais e meu orientador, Pe. Sandro Rogério. Obrigado também àqueles que colaboraram e colaboram na minha formação, direta ou indiretamente, na faculdade, nos livros, nos jornais. Agradeço também a todos os especialistas e doutores que foram alvos de minhas críticas aqui nos tempos áureos. Por fim, obrigado a Deus, por me dar a oportunidade de sempre falar em Seu nome, mesmo que de um jeito aparentemente debochado.

O recado está dado. Este Vinícius ficará aqui, armazenado em algum lugar da nuvem do ciberespaço, por quanto tempo este servidor de blogs tolerar. Espero ainda contar com sua visita. Fuce no arquivo, procure por palavras-chave! Divirta-se, xingue. Mas saiba que tudo foi, bom ou ruim, com sinceridade. Este sou eu, junto com vocês, Deus e o mundo. “Cerebrando” sempre e em todo lugar. Obrigado!

Os altares da nossa própria decadência

11/07/2012

“Assim fala o Senhor: Eles constituíram reis sem minha vontade; constituíram príncipes sem meu conhecimento; sua prata e seu ouro serviram para fazer ídolos e para sua perdição. Teu bezerro, ó Samaria, foi jogado ao chão; minha cólera inflamou-se contra eles. Até quando ficarão sem purificar-se? Esse bezerro provém de Israel; um artesão fabricou-o, isso não é um deus; será feito em pedaços esse bezerro da Samaria. Semeiam ventos, colherão tempestades; se não há espiga, o grão não dará farinha; e, mesmo que dê, estranhos a comerão. Efraim ergueu muitos altares em expiação do pecado, mas seus altares resultaram-lhe em pecado. Eu lhes deixei, por escrito, grande número de preceitos, mas estes foram considerados coisa que não lhes toca.” – Profecia de Oséias, cap. 8, vers. 4-7.11s

O mundo pós-moderno, amoral e consumista quer pintar o ser humano como livre, espontâneo e crítico, sem prestar atenção na mínima relação entre homem e coisas, como se os objetos fossem “extensões do homem”, parodiando McLuhan. Ao aumentar a importância dos objetos – sejam de consumo ou não -, acaba-se por diminuir a importância absoluta do próprio ser humano, colocado em pé de igualdade diante do que ele próprio fabrica e da natureza. Ou não é espantoso ver o Fantástico dar grande destaque a uma bomba que arrancou dois dentes de uma cadela? Ou a Folha Equilíbrio trazer reportagem de fôlego sobre o teste de produtos cosméticos em coelhos? Presencia-se uma inversão de valores, onde se rebaixa o humano e se eleva o material, objetivando os homens e antropomorfizando as coisas.

Isto não é algo novo, e pode-se dizer que é até uma tendência da própria humanidade. Na antiguidade, seu nome era “idolatria”, denunciada por tantos profetas judeus e não-judeus, como o exemplo de Oséias no trecho acima. A construção de ídolos que seriam alternativas ao “verdadeiro Deus” não representa simplesmente um erro de teologia da parte do povo, mas uma própria perda de sua identidade enquanto povo, e dos valores verdadeiros que o deveria nortear para uma vida justa e em paz. Resume o profeta, no trecho acima “Semeiam ventos, colherão tempestades”, e mais adiante, em outro trecho, diz “Semeai justiça entre vós, e colhereis amor.” Em especial para o povo de Israel, ser fiel ao seu Senhor Javé correspondia em especial à saúde do próprio povo, e não apenas uma relação de subordinação a uma potestade divina.

E hoje a revolução neo-iluminista contra as religiões (em especial o cristianismo católico e o judaísmo) e contra a moral quer dar o golpe de misericórdia num processo que se iniciou nos fins da Idade Média, e que na escola aprendemos como “a volta do antropocentrismo”. Tal revolução quer desfazer qualquer tipo de parâmetro que paute a vida do homem a não ser a vontade do próprio homem. E eis que constituímos reis e príncipes de acordo com nosso desejo, erguemos altares para aquilo que achamos ser divino, construímos bezerros luxuosos com nosso ouro e nossa prata. Tudo parece muito bonito, não fosse o homem se tornando mero instrumento de cenário tão promissor, para no fim se tornar um entrave. A idolatria e a infidelidade do homem é uma traição contra a própria raça. Há quem ache isto bom. Mas Oséias já alertava: sem valorizar o homem e seu valor “divino”, só sobram espigas vazias, que o pouco fruto que der, estranhos comerão.

Não estamos sozinhos no universo

19/06/2012

Não, este texto não tem a ver com OVNIs, planetas, estrelas, etc. Até porque o universo no qual muitas vezes nos sentimos (e acreditamos estar) sozinhos é muito mais restrito e não precisa de foguete pra ser explorado: é o nosso microcosmo, o nosso “eu”. O mundo pós-moderno é cada vez mais enfático em nos fazer acreditar que somos nós CONTRA o mundo, e não nós E o mundo. E disso surgem as ilusões que nos levam à depressão, solidão e todos os males do egoísmo. É necessário entender que a humanidade é algo único, muito mais do que o ecossistema do planeta. É disso que fala JP Coutinho num belíssimo texto hoje. Ainda penso num dia em que saiamos no nosso egocentrismo e entremos num verdadeiro antropocentrismo, numa revolução copernicana que deve necessariamente passar pelo teocentrismo. Ao texto.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Testemunhas de um crime

A vida só nos pertence até certo ponto. Ela é também o resultado da teia de afetos e ligações que estabelecemos

Emma (nome fictício) tem 32 anos. Foi estudante de medicina, e os colegas dizem que era uma pessoa inteligente e agradável.
O que os colegas não sabiam é que, desde a adolescência, Emma sofria de distúrbios alimentares graves, que a conduziram a uma anorexia severa.
Agora, aos 32, Emma deixou de se alimentar e expressou seu desejo de morrer. Acabar com o tormento é para ela mais importante do que continuar com uma vida que, aos seus olhos, perdeu o valor.
E os pais de Emma? Os pais concordam. Sim, eles gostariam que a filha tivesse uma vida normal, uma família, uma profissão, que morresse um dia, na velhice, rodeada por netos ou bisnetos.
Mas a realidade é outra: a filha sofre há vários anos. De forma atroz. Respeitar seu desejo de morte é, talvez, o gesto mais caridoso daqueles que a amam.
A história descrita não é invenção minha. Foi levada perante a Justiça inglesa recentemente -e o juiz responsável pelo caso, Peter Jackson, decidiu: Emma será alimentada à força, mesmo que isso signifique imobilização física e sedação.
Hoje, Emma pode olhar para a sua vida e não encontrar qualquer valor ou propósito. Mas um dia, recuperada psicologicamente, a perspectiva de Emma pode ser outra.
Claro que o juiz sabe que, mesmo com alimentação forçada, as hipóteses de sobrevivência de Emma são reduzidas: meses seguidos de quase jejum completo deixaram o seu organismo em estado deplorável.
Mas é preciso não desistir, diz o juiz. Mesmo contra a vontade da própria moça, pois só a morte é irreversível.
Eis a história que tem comovido e dividido a sociedade inglesa. Os argumentos de ambos os lados são conhecidos: há quem aplauda o juiz pela “decisão mais difícil de uma carreira” (palavras do próprio).
E há quem condene a sua sentença abusiva: a autonomia do sujeito, em matéria médica, é soberana. Eu devo poder recusar os tratamentos que bem entender mesmo que isso resulte em minha morte.
Entendo todos os argumentos. Teoricamente, e de acordo com as circunstâncias, sou capaz de simpatizar com ambos. Mas existe um terceiro elemento que paira sobre o caso e que, a meu ver, praticamente o decide.
Esse terceiro elemento somos nós. Nós, testemunhas potenciais da autodestruição de um ser humano. Nós, testemunhas silenciosas dessa autodestruição.
Anos atrás, o ensaísta e psiquiatra Anthony Daniels, nome verdadeiro do autor britânico Theodore Dalrymple, publicou na revista “The New Criterion” texto sobre as implicações éticas das diferentes formas de “morte assistida” (“Do We Own Our Lives?”, fevereiro de 2009).
Por diversas vezes já me referi a esse texto aqui. Retorno a ele sem hesitar. É um texto primoroso porque oferece uma comparação primorosa: se alguém decide saltar de uma ponte, o gesto é autônomo, pessoal -e, palavra decisiva, solitário. Nada a fazer, tudo a lamentar.
Mas nenhuma pessoa saltará de uma ponte se eu estiver passando por ela e puder evitar o ato. Nesse momento agônico, a infeliz criatura pode espumar e espernear. Ou, inversamente, pode até dissertar com propriedade e inteligência sobre sua vida miserável, desprovida de rumo ou sentido. Nada disso me convence a largá-la.
Qualquer um pode cometer violência sobre si próprio. Não existe qualquer legitimidade para que a violência de terceiros sobre eles próprios me seja imposta também.
Como conclui Anthony Daniels no ensaio, a vida só nos pertence até certo ponto. Mas ela é também o resultado da teia de afetos, ligações e obrigações que estabelecemos uns com os outros.
Emma, 32 anos, ex-estudante de medicina, podia ter seguido outro caminho. Podia ter procurado uma cabana no fim do mundo para se despedir do seu calvário. Longe dos nossos olhos -e, tristemente, com o conhecimento e a compreensão de seus pais.
A partir do momento em que o seu caso é trazido perante a comunidade, ele deixa de ser apenas um caso pessoal e isolado. Passa a ser também a medida do que somos enquanto civilização.
Se a Justiça inglesa tivesse permitido que um doente psiquiátrico morresse em seus braços, desconfio que seria a sociedade do país a precisar de tratamento intensivo.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/49575-testemunhas-de-um-crime.shtml